Mão parada no ar

Imagem: IA

Da FOLHA

Por RUY CASTRO

  • Às vezes, por educação ou reflexo, apertamos a mão de pessoas que desprezamos
  • No fim do ano, tive o prazer de recusar a minha ao então governador Cláudio Castro

Num evento de fim de ano aqui no Rio, alguém me alertou para uma pessoa que acabara de adentrar o recinto: o então governador Cláudio Castro, institucionalmente convidado. Vi quando ele cruzou o salão, parando de mesa em mesa e oferecendo sua mão aos participantes de cada grupo. Todos lhe retribuíram, não sei se por educação ou reflexo. De repente, Castro —sem parentesco com o colunista— estava diante de minha mesa.

Éramos cinco, eu na quinta cadeira. Castro estendeu a mão a cada um de meus colegas, que a apertaram com ou sem gosto. Dali a pouco, ela estava apontada na minha direção, à espera do correspondente gesto. Mas, com ar casual, não me mexi, apenas olhei para cima e para os lados, e, como se ela fosse invisível, deixei sua mão suspensa no vazio. Castro, político malandro, não passou recibo —recolheu-a e se dirigiu à mesa seguinte. Com certeza, não era a primeira vez que lhe acontecia. Mas era a minha primeira, e com que prazer.

Já apertei mãos ilustres —Guimarães Rosa, Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Pelé, Carlos Drummond, Nelson Rodrigues, Kim Novak, James Stewart, Tony Bennett, Tom Jobim, Juscelino, Tônia Carrero, Di Cavalcanti— e, com a maioria deles, troquei mais de duas palavras. Apertei mãos menos dignas também, ou pelo dito reflexo ou por não poder fugir. Desta vez, tive tempo para premeditar a ofensa. Não foi preciso encarar Castro ou desacatá-lo. A indiferença já era suficiente.

Cláudio Castro, oriundo de Santos (SP) e sem vida política no Rio, é um dos nossos ex-governadores que, com justiça, se viram às voltas com a lei. Seu antecessor foi o também repelente Wilson Witzel, oriundo de Jundiaí (SP) e também desconhecido do eleitor fluminense. Antes deles, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão igualmente nos envergonharam.

Sim, é um recorde vergonhoso para um estado. Não sei como são as coisas nos demais. Mas, no Rio de Janeiro, é bom saber que nossos corruptos são investigados, julgados, condenados e, às vezes, presos.

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