Campanha da fraternidade

Da FOLHA

Por HÉLIO SCHWARTSMAN

  • Primeiras avaliações mostram que Flávio Bolsonaro sai ferido de revelação de envolvimento com irmão Vorcaro
  • Escândalo, porém, não criou situação que o obriga a abandonar imediatamente a candidatura presidencial

Às vezes, invejo profissões alheias. Nos próximos meses, marqueteiros não ligados a Flávio Bolsonaro vão se divertir bolando alusões ao relacionamento fraterno entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. “Você vai mesmo votar no irmão do Vorcaro?” é a minha sugestão para os dias finais da propaganda na TV. Será a campanha da fraternidade.

Isso dito, as primeiras pesquisas após o bólido sugerem que o choque deixa Flávio Bolsonaro ferido, mas não força uma substituição imediata de candidato. É o melhor cenário para Lula. O ideal para o petista é concorrer com alguém que tenha uma rejeição tão grande quanto a sua, e o Bolsonaro menor é quem mais se aproxima dessa condição.

Paradoxalmente, o meteoro master não alterou muito o quadro macro da eleição. O simples fato de Flávio Bolsonaro seguir no páreo é um forte indicativo de que este pleito, como o de 2022, vai opor petistas convictos a antipetistas renitentes. Como os dois blocos têm tamanhos semelhantes, a eleição acabará sendo decidida pelo contingente dos eleitores menos apaixonados, que pode ir tanto para um lado como para o outro.

É aí que o amor fraterno, a filadélfia, entre Bolsonaro e Vorcaro pode ter produzido uma hemorragia interna mais difícil de diagnosticar. Se o caso afastar definitivamente o eleitor independente do senador fluminense, sua vitória num segundo turno pode tornar-se inviável. Evangélicos e o povo alérgico à corrupção são os grupos-chave aqui. É o flanco aberto que os marqueteiros antibolsonaristas devem tentar explorar. E nem é necessário convencer esses eleitores com perfil mais à direita a apoiar Lula.

Basta que anulem seu voto ou não compareçam num eventual segundo turno para dar ao petista uma vantagem que poderá revelar-se decisiva. Outro paradoxo é que o novo escândalo não trouxe nenhuma informação sobre Flávio Bolsonaro que já não tivéssemos antes. Pelo menos desde o caso das rachadinhas na Alerj, sabemos que é temerário pôr na mesma frase o nome desse jovem político e a palavra ética.

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