Trump pode perder para um camelo na disputa para entrar no reino dos céus

Da FOLHA
Por JOÃO PEREIRA COUTINHO
- Para ter perdão, o pecador precisa reconhecer que é pecador
- Confrontado com Jesus, o mais provável era ele chamar o ICE
Em plena Páscoa, deparei-me com uma pergunta apropriada —será que Donald Trump vai para o céu?
A pergunta não é absurda. O próprio Donald, em declarações ou entrevistas, já lidou com ela, lembra a revista New York.
Aos 42 anos, era uma pergunta abstrata, distante, que não inquietava o presidente. Céu, inferno, reencarnação —o homem não acreditava nesses mitos. Tinha pressa de construir o seu.
Algo mudou dez anos depois. Donald passou a esperar que o céu existisse; caso contrário, a vida terrena perderia o sentido. Podemos dizer que Trump aplicava o raciocínio do jogador de cassino à teologia cristã —jogamos aqui embaixo porque esperamos ganhar o prêmio final lá em cima.
A primeira eleição, em 2016, introduziu uma mudança na relação de Trump com a eternidade —a presidência seria o caminho para garantir a passagem para um Mar-a-Lago celestial. Essa crença se reforçou depois da tentativa de assassinato de que foi vítima.
Nos últimos tempos, a fé tem fraquejado. E o homem que só admite ganhar, mesmo quando perde, já admite perder, mesmo quando ganha. O céu pode não ser para ele.
Entendo as angústias de Trump. À luz dos textos sagrados, o destino já era bem sombrio. “É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus?”
O desmedido apego ao dinheiro, que só aumentou com a presidência —mais US$ 1 bilhão em lucros—, põe o nosso Donald na posição vexatória de perder para um dromedário.
É um pensamento perturbador: uma vida inteira de riqueza acumulada, impunidade judicial e política, bajulação alheia —e, no momento decisivo, um animal do deserto tem direito a viajar em classe executiva?
Espero que ninguém o avise disso. Caso contrário, os alvos podem acabar sendo outros nas aventuras militares do Oriente Médio.
Claro que existe sempre a possibilidade de perdão. “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”, terá dito Jesus aos fariseus.
O problema é que o pecador precisa reconhecer que é pecador, expiando seus erros. É uma atitude de humildade que não combina com o nosso Donald. Confrontado com Jesus e seus apóstolos, o mais provável era mandar chamar o ICE, a polícia de imigração, e deportar esses ilegais para a Palestina.
Só a graça divina, por definição insondável, resolve o que a biografia complica. Trump, naturalmente, confia nela —ignorando que muitos são chamados e poucos escolhidos.
Eu, se fosse Trump, aproveitava a Páscoa e preparava um plano B. Ou talvez D, de dieta. Não por virtude. Por precaução, claro. O buraco da agulha continua apertado.
