Se Vorcaro quiser falar

De O GLOBO

Por ELIO GASPARI

Uma delação do ex-banqueiro precisa levar a mares nunca navegados

A substituição do advogado Pierpaolo Bottini por seu colega José Luis Oliveira Lima na defesa de Daniel Vorcaro sinalizou que o dono do falecido banco Master caminha para uma delação premiada. Antes de ser preso, Vorcaro usava sua memória como arma.

Tentando falar com o ministro Fernando Haddad, ele mandou um recado curto e grosso: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”. Haddad não o recebeu, e algo aconteceu com ele.

O instituto da delação premiada tem uma história de altos e baixos. Ela chegou ao pior momento com o ex-ministro Antonio Palocci. Ele falou em 2018 à Polícia Federal e deu tudo errado. Ela serviu apenas para o juiz Sergio Moro dar uma mãozinha ao candidato Jair Bolsonaro, que viria a nomeá-lo ministro da Justiça. Palocci atirou para todos os lados, mas nenhuma de suas pistas, ou maledicências, foi investigada direito pela Polícia Federal. Por exemplo: Palocci falou de um dinheiro líbio que havia sido mandado ao PT por meio de uma conta do marqueteiro Duda Mendonça, que vinha colaborando com as investigações. Ninguém perguntou a Mendonça se o depósito chegou a sua conta.

Lá atrás, quando Palocci anunciou sua disposição de falar, o Ministério Público sentiu o cheiro de queimado e não quis ouvi-lo. Vorcaro está numa prisão de segurança máxima, e não é preciso ser juiz para prever que ele tome uma pesada multa (coisa que a esta altura pagaria com gosto) e rale uma prisão duradoura (coisa que o levaria a cumprir a ameaça feita a Haddad).

Indo para uma delação de Vorcaro, é uma incógnita o que pode contar e provar. As relações perigosas que tinha com funcionários do Banco Central, parlamentares e magistrados são conhecidas. Algumas estão documentadas, outras não.

Falando, Vorcaro pode vir a ser uma valiosa testemunha para mostrar os mecanismos que rolam no escurinho de Brasília. Mesmo assim, o grande painel já é conhecido. Como sempre, o Tinhoso mora nos detalhes. Como eram remunerados os amigos de uma vida? Quais eram os pedidos e quais eram os oferecimentos?

Os investigadores não podem mais repetir o que o Ministério Público dos Estados Unidos fez com o financista Ivan Boesky em 1986. Espetaram-lhe um microfone na lapela, transformando-o num grampo ambulante. Mesmo assim, podem transformá-lo num colaborador por algum tempo, mostrando os caminhos das pedras. Para ficar no caso de Boesky, ele tomou uma multa de US$ 100 milhões e ralou dois anos e meio de cadeia. Michael Milken, que denunciou, pagou multa de US$ 200 milhões e indenizou suas vítimas com US$ 400 milhões, foi condenado a dez anos de prisão, acabou ralando 20 meses e mais tarde foi formalmente perdoado pelo presidente Donald Trump.

A ideia de Daniel Vorcaro prestando um ou dez depoimentos pode não levar longe. Se ele quer mesmo colaborar com a Viúva, deve mostrar que é uma testemunha útil. Até sua prisão, colaborar era apenas uma ameaça. Agora, resta-lhe o caminho de provar que se tornou um colaborador verdadeiro, soltando fios suficientes para permitir que os investigadores entrem em mares nunca dantes navegados.

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