Fome em Gaza é componente extra a pressionar Israel

Da FOLHA
EDITORIAL
- Ao declarar que há carência alimentar extrema na região, ONU acusa Tel Aviv de ‘obstrução sistemática’ de suprimentos
- Imagens de crianças esquálidas e esfaimados disputando comida e saqueando caminhões não deixam dúvidas sobre as dimensões do inaceitável flagelo
A catástrofe humana que por meses a fio assola a Faixa de Gaza fez a ONU declarar nesta sexta-feira (22) o que, a olhos vistos, já se tornara evidente: a fome grassa na região, sobretudo entre crianças.
O reconhecimento oficial veio após seguidos alertas de especialistas, incluindo os da própria entidade, e é inédito em todo o Oriente Médio. Nada menos que 500 mil pessoas estariam enfrentando variados níveis de privações.
A fase 5 do pesadelo famélico, a pior na escala de classificação das Nações Unidas, abrange a Cidade de Gaza —onde nova ofensiva de Israel está em curso após a convocação de 60 mil reservistas. Outras áreas estão na fase 4, mas caminham a passos largos para a 5, segundo a organização.
Enquanto a ONU vê “obstrução sistemática” para as ações de ajuda humanitária, com os suprimentos se acumulando na fronteira, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, classificou o relatório de “mentira descarada”.
Autoridades de Israel apontam abordagens tendenciosas, motivadas por fontes ligadas ao Hamas, e lacunas metodológicas na elaboração do documento. Tel Aviv culpa ainda as próprias entidades de assistência por falhas logísticas e o boicote dos terroristas que controlam o território.
É sob esse cenário funesto que a Guerra Israel-Hamas deve completar dois anos em outubro, aparentemente ainda longe de entendimento ou mesmo de um cessar-fogo. Pelo contrário: o plano atual é de ocupação total de Gaza.
Foi no dia 7 daquele mês que um ataque terrorista arquitetado pelo Hamas em território israelense matou cerca de 1.200 pessoas e fez dezenas de reféns, muitos de paradeiro incerto até hoje.
A reação fulminante de Netanyahu, certamente desproporcional ao atingir milhares de civis inocentes, já teria deixado um saldo de quase 60 mil mortos, segundo a contagem da facção.
Como em todo conflito, a guerra de versões é estratégica para a batalha, mas as recorrentes imagens de crianças esquálidas e esfaimados disputando restos de comida e saqueando caminhões não deixam dúvidas sobre as dimensões do inaceitável flagelo.
Diante do impasse, a comunidade internacional começa a dar seus recados —como Reino Unido e França, que afirmaram recentemente que vão reconhecer um Estado palestino. Até mesmo o aliado Donald Trump já admitiu não estar convencido de que não exista fome na Faixa de Gaza.
Resta saber agora se Israel de fato ampliará a ofensiva ou se cederá, ao menos em parte, a apelos humanitários diante da escalada alarmante da iniquidade.
