Guardian transforma herança escravocrata em reparação

Da FOLHA

Por BIANCA SANTANA

Após investir em pesquisa sobre vínculos de sua fundação com o tráfico transatlântico, jornal britânico financia ações concretas de justiça restaurativa

“O Guardian pede desculpas pelos vínculos de seus fundadores com a escravidão transatlântica”. A manchete da reportagem publicada em 28 de março de 2023 começou a ser escrita em 2020, quando, em meio aos debates sobre racismo no jornalismo pós-assassinato de George Floyd, o jornal britânico decidiu ir mais fundo do que apenas contar o número de jornalistas negras e negros em sua Redação.

O centro de pesquisa University of Nottingham’s Institute for the Study of Slavery foi contratado com o objetivo de investigar, de forma imparcial, os possíveis vínculos entre o jornal, o tráfico transatlântico e a escravização negra. Um jornal fundado em 1821 certamente teria algum vínculo com o mercado mais lucrativo do período. Só não imaginavam a profundidade dessa ligação.

A história começa com John Edward Taylor, fundador do The Guardian, que obteve financiamento de comerciantes de algodão diretamente ligados à escravidão nas Américas. Esses investidores acumularam riqueza comprando algodão produzido principalmente no Caribe e no sul dos Estados Unidos, mas também no Brasil, por africanos e seus descendentes escravizados. Com essa fortuna, investiram na criação de um jornal voltado aos interesses de uma elite progressista e branca.

O jornal não se limitou a uma confissão. Criou o “Cotton Capital”, projeto editorial de produção de conteúdo inédito e relevante sobre a economia escravocrata, apagamentos históricos e possibilidade de justiça restaurativa e reparação, contando a história das comunidades negras diretamente afetadas pela escravização de seus ancestrais por investidores do jornal. E criou um plano de dez anos de ações reparatórias, com apoio financeiro a iniciativas educacionais e culturais em comunidades negras no Reino Unido e na diáspora, além da criação de bolsas de estudo, parcerias com museus e mudanças estruturais na própria Redação do Guardian, com investimento total de £ 10 milhões (R$ 73,6 milhões).

O Guardian pediu desculpas públicas por existir graças ao trabalho escravo de pessoas negras. E assumiu a responsabilidade de aplicar parte de seu fundo patrimonial em um projeto robusto de reparação, ao contar a verdade de sua história e investir em melhorar a vida dos descendentes de escravizados. Tanto a riqueza do jornal quanto a miséria das pessoas negras descendentes de escravizados têm a mesma origem e podem ser rastreadas.

Inúmeras vezes consultei o site do projeto para preparar aulas para cursos de jornalismo, principalmente na disciplina “Mercado Editorial”, que ministro na Faap. Desta vez, as linhas que imitam costuras, fios de algodão que cruzam mapas, imagens, documentos e fotografias no projeto gráfico do Cotton Capital me convocaram a escrever sobre ele neste jornal.

As mesmas linhas que costuraram lucros para homens brancos britânicos no século 19 e financiaram o nascimento de um jornal liberal em Manchester costuram agora uma tentativa exemplar de reparação.

Que jornal, que empresa de qualquer área ou instituição filantrópica tem sua origem desvinculada da escravidão? Quantos dos bilionários brasileiros têm a origem de sua fortuna no lucro oriundo da escravização negra? E, ainda mais importante, quem vai ter a decência de investigar, contar e iniciar a reparação tão necessária também ao Brasil?

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