Legendários, o movimento cristão com cheirinho de ‘red pill’ e lições de ‘coach’

Da FOLHA
Por FLÁVIA BOGGIO
Há formas mais eficientes de se tornar herói em sua família do que rolar por cima de outros homens e escalar montanhas
Com a livre demanda de informações que recebemos diariamente, nenhum esforço é suficiente para filtrar as asneiras que chegam à tela do nosso celular.
Outro dia, fui acidentalmente impactada pelo perfil de um médico turco especialista em transplante capilar. Não sou homem nem calva, mas perdi uns 20 minutos vendo os inúmeros “antes e depois” de homens que trocaram suas carecas por vastas cabeleiras.
A mesma coisa aconteceu recentemente, quando fui impactada —aqui o termo tem mais a ver com choque mesmo— por um grupo chamado Legendários. Como sofro de TDAH com hiperfoco no que não merece foco nenhum, parei com minhas obrigações e fui pesquisar.
Criado pelo pastor Ricardo Bernardes, o movimento, que atrai desde o ex-BBB Eliéser até Pablo Marçal e Neymar pai, ajuda homens a “restaurar a configuração original do homem” e devolve “o herói a cada família”.
Os integrantes desembolsam entre R$ 500 e R$ 81 mil por experiências como subir montanhas, caminhar pelo mato e engatinhar em cima de outros homens para “viverem como Jesus” e se tornarem “inquebrantáveis diante do pecado”. É uma mistura de filosofia de “coach” com cristianismo.
Nada contra passar alguns dias entre parceiros. Todos os anos eu tiro uma folga para correr uma maratona. Mas é justamente para “fugir” da minha família e lembrar que, além de trabalhar e criar dois meninos, sou uma mulher com paixões próprias.
Adoraria escalar montanhas, atravessar rios —não necessariamente rolar em cima de desconhecidos, mas até isso eu aceito— e dormir mais de três horas seguidas em troca de alguns dias de folga.
O problema é que esses movimentos que buscam devolver aos seguidores a “masculinidade original” costumam pregar a “feminilidade original”, de quando mulheres não tinham direitos e liberdades. Eram apenas propriedades dos homens, que podiam tratá-las como bem entender. Quem aqui sentiu um cheirinho de “red pill”?
Existem formas mais eficientes de se tornar “herói de sua família”, como ser um pai presente —diferente dos outros 11 milhões que abandonam seus lares— e participar ativamente da criação dos filhos. Para ouvir a voz de Deus, é só passar três noites em claro cuidando de um bebê doente. Outras vozes surgirão também.
E, se precisar de um fim de semana com um bando de homem, é só ir. Só não use a desculpa de que é pela família.
