Fascistas na padaria

Da FOLHA
Por TATI BERNARDI
Aquele pequeno playboy misógino de 15 anos precisa ser salvo
A alegria de um pão na chapa com requeijão na entrada. A crosta de magia e felicidade colidindo com a língua mais faminta que existe, que é a língua das quatro da tarde. Peço suco de melancia com gengibre e começo a cantarolar, dentro da cabeça, aquela do Guilherme Arantes “uuu cheia de charme, um desejo enorme, de revolucionaaar ooo”.
A padaria está lotada e lembro com carinho de um ex-namorado que todos os domingos calculava quanto o estabelecimento deveria lucrar aos finais de semana. Em poucos segundos, somando muitas coisas e subtraindo outras (percebam a maneira elaborada com a qual eu tento explicar uma matemática que me soava impossível) chegava a um número que nos deixava boquiabertos. Sim, os sócios estavam ricos.
Então, eles se sentam ao meu lado. Marido, esposa e filho de 15 anos. Estão de verde e amarelo. Voltam da Paulista. Foram pedir anistia para o presidente mais asqueroso e criminoso da história desse país. Pedem croissant de chocolate e me senti ofendida: eles não merecem o doce preferido da minha filha.
Não basta ser um casal babaca, é preciso ensinar o filho a ser essa amostragem de misoginia com topete. Estragam minha fome, minha música, os átrios, os ventrículos. O batimento cardíaco ritmado pelo asco piora meu prolapso e investigo se o copo do meu suco de melancia com gengibre está lascado, pois parece que estou engasgada com um pedacinho de vidro.
Eles têm direito! Faz parte da democracia aceitar quem pensa diferente! Mas será que esse casal pensa? E será que faz parte da democracia respeitar fascista (ainda mais um casal que educa o filho a defender quem defende torturador?)? Não que eu vá começar a berrar “massa de manobra de assassino” ou pegar uma cruz e uns dentes de alho e pregar “volta pro inferno”. Mas faço do meu jeito. Uma crônica para esses idiotas.
A diferença é uma coisa linda. Estava há poucos minutos lembrando com carinho desse ex-namorado com um cérebro tão diferente do meu. Fácil não era e tenho certeza que muitas das brigas eram porque ele via um quadrado exato onde eu via um rocambole alado com purpurinas dançantes. Mas era bonito, era amor e eu vou sorrir com respeito e saudade todos os domingos em que eu me sentar nessa mesa.
“Ai, Ricardo, que lugar cheio, quente, que horror”. Essa é a frase que a esposa de verde e amarelo repete. Não posso chamá-la de companheira do fulano, parceira, essa daí é esposa mesmo. O pai trata mal a mocinha preta que o atende, olha feio para a moça com uma criança barulhenta ao lado. E os odeio.
Aquele pequeno playboy misógino de 15 anos precisa ser salvo. Ainda dá tempo? Na minha época, em colégio católico, eu tinha aulas de educação moral e cívica. Hoje, quando busco esses antigos colegas nas redes sociais, mais da metade da minha turma elegeu Bolsonaro. E se em vez de uma aula estranhíssima em que aprendíamos a honrar o bom comportamento em uma fila militar, tivéssemos tido aulas de sociologia, filosofia, educação antirracista?
A diferença é uma coisa linda. O fascismo é terrível, assassino, racista, eugenista, mata jovens, mata mulheres, mata homens eleitos pelo povo, estupra, joga corpos no mar, ri de pessoas sufocando. E o pior: ele está logo ali, coladinho ao nosso pão na chapa com requeijão na saída.
