Editorial do Estadão é colírio para os olhos dos racistas

Há alguns dias, jogadoras do River Plate foram presas, em flagrante, após ofenderem as rivais gremistas com palavras racistas e imitarem um macaco para a gandula que trabalhava na partida.
Reprimenda correta transformada, após audiência de custódia, em prisão preventiva.
O River, também punido, em momento algum tratou o comportamento da justiça brasileira como abusivo.
É provável que nos próximos dias, ou horas, as racistas sejam postas em liberdade, mediante comprovação de que estarão à disposição da Lei quando chamadas ao acerto de contas.
Hoje, em Editorial, o Estadão tratou o comportamento discriminatório das argentinas como normal no ambiente do futebol.
Destacamos:
“Trata-se de evidente exagero a prisão preventiva de quatro jogadoras do time feminino de futebol do River Plate sob suspeita de injúria racial durante uma partida contra o Grêmio em São Paulo. O episódio obviamente deveria ter sido tratado como uma questão de indisciplina desportiva, e não como um caso de polícia”
“No mundo do futebol, são comuns as ofensas entre jogadores, sobretudo quando há grande rivalidade, como acontece sempre que Argentina e Brasil se enfrentam. Se a polícia fosse prender cada jogador que xinga outro durante um jogo entre brasileiros e argentinos, não haveria cadeia suficiente no mundo”
“Consta que Leônidas da Silva, um dos maiores jogadores de futebol que o Brasil produziu, aconselhou um companheiro que se queixara das ofensas que vinha sofrendo durante uma partida a relevar aquele comportamento, dizendo que “a mãe que você leva para o campo não tem nada que ver com a mãe que você tem em casa”. Sábias palavras do craque, apelidado de “Diamante Negro”.”
“Assim, a draconiana decisão de manter na cadeia atletas que apenas reproduziram o comportamento lamentável que muitos outros jogadores argentinos reservam a seus adversários brasileiros negros, comumente chamados pelos hermanos de “macaquitos”, parece destinada a provar que o Brasil é um lugar que não tolera racismo – o que, infelizmente, sabemos que não é verdade.”
“É evidente que ofensas de cunho racista no futebol são abomináveis, mas só deveriam se converter em caso de polícia quando acontecem nas arquibancadas. A esse propósito, aliás, há robusta campanha mundial contra o racismo nos estádios. Ademais, torcedores racistas volta e meia são presos e processados. Ou seja, está claro que o racismo não é tolerável – mas também não é razoável que se prendam atletas apenas porque xingaram adversários dentro de campo.”
Ao trazer para contexto atual uma fala atribuída, nos anos 30, a Leônidas da Silva, em caso que nem de longe possui a gravidade do racismo, o Estadão insere desonestidade intelectual à discussão.
Nenhum comportamento discriminatório deve ser tolerado.
A diferenciação do racismo de torcedores para o praticado por jogadoras é outro argumento que escandaliza, sugerindo que dentro das quatro linhas, por conta da forte emoção, o crime estaria liberado.
Como se o ambiente da arquibancada fosse marcado pelo equilíbrio emocional.
Qual deveria ser a reação de Vini Junior, símbolo mundial da luta antirracista, ao ser tratado como ‘macaco’ por adversários?
A rivalidade esportiva, segundo o jornal, deveria servir como atenuante ao comportamento preconceituoso no esporte.
Quando o Editorial de um dos três principais jornais do país assemelha-se a um panfleto do The Crusader, defendendo impunidade para o crime de racismo, passamos a compreender melhor as razões dos pensamentos de incivilidade dominarem o cotidiano não apenas dos extremistas de direita, mas também de boa parte dos oprimidos pelo sistema.
