O pobre de direita

De O GLOBO

Por RUTH DE AQUINO

Vivemos uma imensa TPM. Tensão Pablo Marçal. Os ricos não elegem ninguém. O país tem 90% de pobres

A eleição municipal está aí, e eu, carioca, me sinto como se estivesse em São Paulo. Quase a totalidade das colunas políticas é sobre esse desclassificado Pablo Marçal, que se diz o verdadeiro representante da direita. Coitada da direita. O Brasil vive uma TPM gigantesca. Essa Tensão Pablo Marçal engolfa as conversas, numa mistura de pânico e galhofa. Um candidato que faz das ofensas sua maior arma pode se tornar prefeito da maior cidade do país. E isso diz muito do brasileiro.

Se o PM for para o segundo turno, de quem será a culpa? Li um artigo corajoso da Vera Magalhães no GLOBO: “Chega de brincar, elite paulistana”. Para Vera, o mercado financeiro, que “caiu de amores por um arruaceiro surgido do nada”, e “o povo do colete de náilon de gominhos com camisa social e sapatênis” seriam os responsáveis pelo fenômeno PM, o ex-coach que promoveu na campanha “um campeonato de bizarrices” e “um show de horrores”.

Acontece que os ricos não elegem ninguém no Brasil. Nem prefeito, nem governador nem presidente da República. Quem elege são os pobres. É difícil crer. Por isso é preciso repetir. Em nosso país, 90% ganham menos de R$ 3.500 por mês. A renda média mensal dos 5% de ricos no Brasil é de pouco mais de R$ 10 mil. E 1% dos brasileiros ganha mais de R$ 28 mil por mês. São os ricos de verdade. A elite. Um por cento.

Então, é a massa de pobres que decide qualquer eleição. Ah, você dirá. Os pobres são manipulados pelos ricos. Não acredito. Na hora de votar, o pobre está pensando nele, no emprego dele, na sobrevivência, na saúde, na segurança, no transporte, na igreja. Quer ser valorizado, não quer ser humilhado. Tem valores morais que deseja ver respeitados. Infelizmente, acredita em salvadores da pátria, em falsos profetas. Lê pouco ou quase nada. É influenciado pelas redes sociais e por fakes.

Custamos a entender por que uma grande parcela de pobres vota na direita e na extrema direita. É um voto de confiança em quem não tem políticas sociais para combater a desigualdade e a fome. Em quem não se importa com a miséria e com o meio ambiente. Por que votar contra si mesmo?

Acaba de ser lançado um livro, “O pobre de direita”, do sociólogo Jessé Souza, que se dispõe a decifrar essa aparente contradição no Brasil. O subtítulo é “A vingança dos bastardos, o que explica a adesão dos ressentidos à extrema direita?” Em seu prefácio, pontifica: “Nunca foi a economia, tolinho!” Eu me senti uma tolinha, porque acredito no poder eleitoral de uma economia forte com oferta de empregos.

É na questão moral que concordo com Jessé. “As pessoas têm como razão última de sua ação social a dimensão moral, ou seja, a luta por reconhecimento social que garante autoestima e autoconfiança para cada um de nós. Sem isso, ninguém se levanta da cama para fazer qualquer outra coisa. Somos todos seres frágeis e vulneráveis, construídos pela visão positiva ou negativa que a sociedade possui de cada um de nós”.

Isso é verdade. Para qualquer classe social. E os pobres são 90%. Qual discurso ganhará seus corações e mentes?

Pobres desencantados com a esquerda votam na direita e na extrema direita. É mais fácil acreditar na mentira do que conviver com a verdade. São Paulo parece ser, neste domingo, não uma disputa municipal como as outras, mas um sinalizador da consciência nacional. Por isso, essa TPM toma conta do noticiário.

Inevitável lembrar a irreverência de Tim Maia. “Esse país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”. Veremos o resultado dessas eleições municipais, tão importantes para o futuro do Brasil. Não se abstenha. Vote consciente.

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