O crime que nunca morreu e, no final, Marielle venceu a impunidade

De O GLOBO
Por MÍRIAM LEITÃO
Marielle Franco não foi esquecida em nenhum momento desses 2.202 dias, desde aquela noite em que foi assassinada
Marielle Franco permaneceu viva nas lembranças, em placas nas casas das pessoas, na contagem do tempo, nas perguntas sempre repetidas: quem matou? E depois, quem mandou matar? E agora, por que mandou matar?
A morte da jovem e promissora vereadora, que vitimou também seu motorista Anderson Gomes, foi desses crimes que atravessam a alma do país e nunca mais descansam. Todas as vidas são valiosas, mas a morte de Marielle Franco nunca foi esquecida em nenhum momento desses 2.202 dias, desde aquela noite em que tiros no rosto da vereadora foram disparados pelos criminosos.
O que a Marielle deu ao país mesmo depois da sua morte é a esperança de que a impunidade não vence no final. Foi a derrota dos que apostavam que o tempo apagaria da memória o crime bárbaro e inaceitável. Mesmo num estado com o do Rio, dominando pelo submundo da milícia e todas as suas conexões diretas com o poder, e o contrabando disputando território, a impunidade foi vencida.
É na impunidade que apostavam o deputado, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e o delegado da Delegacia de Homicídios. Eles apostavam quando contrataram o matador de aluguel e policial Ronnie Lessa que o crime seria esquecido. Afinal, o que era uma vereadora em começo de mandato? Eles não sabiam que esse crime a família, os amigos, os admiradores, os democratas, as pessoas de bem, o país, não aceitariam. Nessa travessia, a dor maior e a força mais impressionante vieram da família, principalmente de dona Marinete e a ministra Anielle Franco.
E foram anos de idas e vindas, anos de insucesso, anos em que os criminosos sonharam com a impunidade como certeza. O governo estadual não se mostrava empenhado, o governo federal muito menos. Tudo começou a mudar quando, no novo governo, o então ministro Flávio Dino levou a investigação para a área federal.
Houve um tempo, na antiga administração do Brasil, em que até a família temia a federalização porque seria a certeza de que nada seria revelado.
Hoje o espanto não é a prisão dos irmãos Brazão, o deputado Chiquinho e o conselheiro do TCE Domingos, mas o fato de a ação ter alcançado também um delegado, ex-chefe da Polícia Civil no Rio, que fora chefe da delegacia de homicídios, Rivaldo Barbosa. Ele que era apontado como especialista em desvendar crimes, e que prometia à família que tudo seria esclarecido.
A vitória dessa manhã de domingo é imensa porque ela mostra que o país estabeleceu um limite, mesmo diante do mar de crimes que nos cerca. O Brasil jamais aceitou essa morte. E hoje os responsáveis estão presos. Há muito a saber. Mas o que reluz, diante da revelação dessa conexão entre um deputado federal, um chefe da Polícia Civil, um conselheiro do Tribunal de Contas sendo mandantes, é a dimensão da coragem de Marielle.
Ela enfrentava o crime, o crime organizado do Rio de Janeiro. E naquela noite de 14 de março de 2018 estava no exercício de seu mandato voltando de ouvir as mulheres pretas sobre como combater o racismo. Marielle vive!
