O astro Rodinei e o imbrochável

De O GLOBO
Por BERNARDO MELLO FRANCO
Defesa de Silvinei Vasques e entrevista de Bolsonaro mostram que não há limite para a lorota na era da pós-verdade
Rodinei é um lateral impetuoso, de pouca técnica e muita disposição. Em duas passagens pelo Flamengo, alternou alguns lampejos com partidas sofríveis. Também ficou conhecido pelo estilo folclórico, que arrancava risadas de colegas e torcedores.
O jogador se transferiu para a Grécia, mas voltou a ser notícia no Brasil. Nada a ver com futebol. Seu nome foi usado pela defesa de Silvinei Vasques, o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal preso por tentativa de interferir nas eleições de 2022.
Bolsonarista de carteirinha, Silvinei ainda é réu numa ação de improbidade administrativa. A denúncia enumera situações em que ele atuou como cabo eleitoral do ex-presidente — sempre de farda e distintivo no peito.
A seis dias do primeiro turno, o então diretor da PRF presenteou o ministro da Justiça com uma camisa do Flamengo de número 22. Coincidentemente, o mesmo número do capitão na urna. Nas alegações finais do processo, o advogado de Silvinei disse que ver propaganda política na camisa seria “um exercício subjetivo, não jurídico e fantasioso”. O causídico acrescentou que o número poderia ser uma homenagem a Rodinei, “principal astro do Flamengo na temporada”. O papel aceita tudo, mas nem a mãe do lateral ousaria defini-lo assim.
A defesa de Silvinei é um fenômeno da era da pós-verdade. A expressão foi dicionarizada em 2016, quando Donald Trump se elegeu presidente dos EUA. Descreve um tempo histórico em que os fatos perderam lugar para as versões, agora chamadas de “narrativas”. Se a verdade factual não importa, é possível inventar qualquer coisa. Até negar uma frase dita a milhares de testemunhas, com transmissão ao vivo na TV.
Em 2022, Bolsonaro usou o 7 de Setembro para fazer campanha. Assim que o desfile acabou, subiu num trio elétrico com a primeira-dama e puxou um coro para si mesmo: “Imbrochável, imbrochável…”. Ontem ele fingiu não se lembrar do episódio. “É mentira essa questão de imbrochável”, afirmou, em entrevista à Rádio Gaúcha. Sem corar, o ex-presidente também garantiu que “nunca se envolveu com corrupção”. “Não tem o que falar a meu respeito sobre joias, vacina e golpe”, declarou.
Os seguidores do Mito já deixaram claro que não se importam com suas lorotas. Hoje prometem recebê-lo com festa em Porto Alegre. Silvinei segue a cartilha do chefe, mas não deve contar com a mesma boa vontade na Justiça.
