Barbie Primeira-Dama

Do OMBUDSMAN DA FOLHA

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

Folha enfim relatou o desconforto de alas do governo com a onipresença de Rosângela da Silva no entorno de Luiz Inácio Lula da Silva. E com uma chamada curiosa: “Janja atua como ‘algoritmo’ de Lula, despacha sem cargo e gera incômodo em aliados”. Como escreveu a Piauí logo após a eleição, no ano passado, Janja é fluente em redes sociais e o marido não usa nem WhatsApp.

O tom da reportagem é bem menos agressivo do que o do texto publicado em junho pelo Estadão, que conferia à primeira-dama “poder de veto no governo” já no título. À época, vários ministros saíram em defesa de Janja nas redes sociais. Desta vez, Gleisi Hoffmann respondeu indiretamente à Folha, lembrando da reação conservadora ao filme da Barbie, que “mostra como a luta pelo protagonismo das mulheres e a ocupação de espaços de poder ainda é longa”. Janja e sua ressignificação do papel de primeira-dama, prossegue a presidente do PT, contribui para combater o “machismo da mídia” e “incomoda muito”.

Gleisi esquece de comentar o machismo do próprio partido e do governo, que barganham com o centrão principalmente postos ocupados por mulheres, sem falar na perspectiva de retrocesso da representação feminina no STF.

Ainda assim, tem um ponto quando nota o incômodo que Janja causa em setores da imprensa. Como se sua figura pública fosse desconectada do fato de ser casada com o presidente; ou que ele, duas décadas mais velho do que ela, deixou de repente de ser a raposa política atenta até às paredes.

Janja perturba pela intromissão assim como Michelle Bolsonaro irritava por ser submissa e, depois, ativo eleitoral. Nesta terra de machos, vulgar e violenta, talvez o que incomode é serem mulheres.

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