Bolsonaro nada ganha recusando-se a passar a faixa para Lula

Da FOLHA
Por ELIO GASPARI
Presidente tem até 1º de janeiro para decidir como pretende sair do governo e retomar sua vida política
Jair Bolsonaro tem até a manhã de 1º de janeiro para decidir como pretende sair do governo e como pretende retomar sua vida política. Poderá passar a faixa presidencial a Lula, indicando que ganhou, perdeu e seguirá seu caminho dentro das quatro linhas da Constituição.
Poderá ir para casa, recusando-se a participar da cerimônia de transferência do poder. Na República, que há dias fez 133 anos, só dois presidentes fizeram essa pirraça: João Figueiredo, em 1985, e Floriano Peixoto, em 1894.
Figueiredo passaria a faixa a Tancredo Neves com alguma satisfação. Como Tancredo estava no hospital, e naqueles dias detestava o vice-presidente José Sarney, foi-se embora, saindo por uma porta lateral do palácio.
O general que completou a abertura, deu a anistia e conduziu a redemocratização estragou sua biografia com a pirraça infantil. A fotografia dele passando a faixa a Sarney simbolizaria seu governo.
Se Bolsonaro passar a faixa a Lula, ninguém achará que passou a gostar dele. O gesto mostrará apenas que, como disse ao reconhecer o resultado da eleição, ficou dentro das quatro linhas da Constituição. É um ganha-ganha contra um perde-perde.
Se Bolsonaro pretende continuar na vida pública liderando uma direita que tirou do armário, nada ganha, tendo-se recusado a passar o cargo ao seu sucessor. Noves fora que, para quem for para a Esplanada dos Ministérios no dia 1º, ele será uma presença dispensável.
Pode-se conceber uma acrobacia burocrática, por meio da qual Bolsonaro vai embora, e pronto. Afinal, às tantas horas do dia 1º de janeiro seu mandato expira e começa o de Lula. Nesse caso, é possível que ele seja empossado pela ministra Rosa Weber, presidente do Supremo Tribunal Federal.
