Ausência que preenche uma lacuna

Da FOLHA

Por RUY CASTRO

Com Bolsonaro mudo, nunca tivemos tanto governo quanto nos últimos dias

Nas primeiras duas semanas desde sua derrota nas eleições, Bolsonaro só foi ao Palácio do Planalto duas vezes. Fez muito bem. Fechou-se mudo no Alvorada e nos poupou de seus insultos, ameaças, mentiras, palavrões, cinismos e perdigotos. Não estávamos habituados a tal bálsamo auditivo. Parece ter enfiado a viola no saco também nas redes sociais e a única vez em que apareceu em público foi naquele discurso de três minutos. Leitores expressaram satisfação por passar dias sem encontrar uma menção a seu nome na primeira página do jornal.

A ausência de Bolsonaro preenche uma lacuna e, no entanto, nunca parecemos ter tanto governo quanto neste momento. O noticiário fala das articulações para formar as equipes de transição e avaliar o que sobrou do país. Especula-se de maneira adulta sobre o novo ministério. Discute-se a divisão de tarefas na futura administração. Os poderes conversam entre si.

Os analistas observam a súbita convivência dos contrários, como se o Brasil nunca precisasse de tantos para recompor os cacos. Estadistas estrangeiros voltam a nos olhar com esperança e respeito, não com horror e repulsa. E fala-se de economia, educação, meio ambiente e programas sociais como se nos competisse novamente discutir esses assuntos, e não nos submetermos impotentes às ordens de um demente.

Esta é a sensação até agora: a de que o Brasil voltará ser dirigido a partir de suas instituições, não de um cercadinho jeca ou de comícios e motociatas pagos com o dinheiro público — dinheiro que Bolsonaro usou todos os dias de seu suposto governo exclusivamente em prol de sua candidatura à reeleição.

Não sei se perceberam, mas, já com poucos meses de Bolsonaro no Planalto, em 2019, esta coluna nunca mais se referiu a ele como “presidente Jair Bolsonaro”. Apenas “Jair Bolsonaro” ou “Bolsonaro”. Chamá-lo de presidente era uma contradição em termos.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.