Quebra de sigilo e testemunhas agravam situação de Diretor do Corinthians réu por estelionato

Em setembro de 2020, o Blog do Paulinho revelou que o empresário Mauro Antônio Salerno, proprietário da ‘Nova Distribuidora de Veículos Ltda’, o mais relevante grupo de concessionárias da GM, acusou Roberto de Andrade Souza, diretor de futebol do Corinthians, de roubar dinheiro da empresa.
R$ 6 milhões seria o prejuízo apurado.
Andrade, por conta destas acusações, foi expulso da sociedade (detinha 5% comprados, segundo informações, em dinheiro vivo – fala-se em R$ 5 milhões – à época em que presidia o clube de Parque São Jorge).
Antes disso, tratava-se de mero funcionário da empresa.
Em 10 de novembro de 2021, a promotora Aline Ferreira Julieti Cury, em relatório, acusou Roberto de Andrade e seu comparsa, Gean Carlos Barbosa, de obterem vantagem ilícita, comprovada, de R$ 1,55 milhão.
As outras acusações estavam prescritas.
Por conta das evidências, o MP-SP denunciou o cartola e seu suposto cúmplice por crimes contra o patrimônio (furto, roubo ou extorsão) e estelionato.

Em 19 de janeiro de 2022, os promotores ofereceram acordo a Roberto Andrade e também a seu parceiro, que, se aceito, evitaria a possibilidade, em caso de condenação, da prisão de ambos:
- confissão absoluta dos crimes cometidos;
- pagamento de R$ 2,5 milhões para reparação dos danos causados à vítima;
- doação de R$ 100 mil à GRAAC ou à APAE

No dia 27 de abril, a proposta foi recusada.
A juiza Erika Soares de Azevedo Mascarenhas, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, no dia 06 de junho, recebeu a denúncia.
Roberto Andrade e o suposto comparsa, Gean, passaram, oficialmente, da condição de investigados para a de réus em ação criminal.
No despacho, a magistrada concedeu dez dias para que a dupla, após citada, se defenda das acusações.

Em três oportunidades, ainda na fase de inquérito, a Policia de São Paulo intimou Roberto Andrade para que, por conta do indiciamento, fosse formalmente qualificado em cartório; o popular ‘tocar piano’.
Em todas, ele descumpriu a obrigação.

Somente há quinze dias, no recente dia 11 de agosto, Roberto Andrade foi devidamente ‘fichado’:

Andrade, tanto na fase de Delegacia quanto à Justiça, tem se pronunciado através de advogados, chegando até a peticionar, em alguns momentos, pedidos para não ser ouvido no processo.
Dois meses após a decisão da 6ª Vara Criminal, o cartola alvinegro ainda não foi encontrado pelos oficiais de Justiça.
Se condenado, Roberto pode pegar, em tese, de 04 a 10 anos de prisão por crime contra o patrimônio e 01 a 05 anos pelo estelionato.
A ausência de confissão seria fator de agravamento da pena.

TESTEMUNHAS E QUEBRA DE SIGILO DIFICULTAM DEFESA DE ROBERTO ANDRADE
Existem movimentações processuais que se contrapõem à argumentação de inocência de Andrade.
- as três testemunhas do processo, além dos acusadores, desmentiram-no:
Testemunha Suely Ferraz

Testemunha Andrea Jacinto da Silva

Testemunha Ademir Zanetin

- quebra de sigilo bancário, determinada pela Justiça (mantida em sigilo), segundo relatório policial, confirmariam a versão dos donos da ‘Nova Veiculos’, supostas vítimas do cartola

ANTECEDENTES CRIMINAIS
A Folha de Antecedentes de Roberto Andrade, juntada aos autos a pedido do MP-SP, trouxe uma surpresa.
Além do processo objeto desta matéria, havia investigação, datada de 2019, sobre falsidade ideológica.
Este processo, porém, foi arquivado.
O conteúdo segue sob Segredo de Justiça:

É robusta a Ficha de Gean Carlos, suposto comparsa de Roberto, principalmente no tocante ao art. 171 (estelionato), justamente o crime pelo qual a dupla será julgada nos próximos meses:
- 16/02/2002 – indicado por estelionato no 1º DP de São Joaquim da Barra;
- 09/01/2004 – indiciado por estelionato no 8º DP de Guarulhos;
- 22/03/2004 – indiciado por estelionato no 8º DP de Guarulhos;
- 10/2018 – indiciado por agressão na 2ª Vara de Ibiuna;
- 06/12/2016 – mandado de restrição na 7ª Vara da Família de Santo Amaro;
- 05/09/2017 – mandado de restrição na 7ª Vara da Família de Santo Amaro
Para que o leitor entenda melhor o caso o Blog do Paulinho republica a matéria “Acusado de ‘roubar’, Roberto Andrade, ex-presidente do Corinthians, foi expulso da própria empresa”, de 25 de setembro de 2020:
Acusado de ‘roubar’, Roberto Andrade, ex-presidente do Corinthians, foi expulso da própria empresa

Cartola declarou R$ 12,4 milhões de patrimônio ao Imposto de Renda

Os desfalques, segundo depoimento do acusador, ocorriam desde 2010, mas somente em 2019 foram descobertos.
Em 09 de abril de 2019, Roberto foi notificado de que estava sendo afastado de suas funções e questionado, no mesmo documento, sobre detalhes dos dois golpes que teria viabilizado.
O primeiro deles, desde 2010, em conjunto com a estelionatária Ângela Cristina Lopes, com direito a provas de repasses de dinheiro na conta pessoal do cartola alvinegro, e o segundo, em parceria com Gean Carlos Barbosa, indicado à ‘Nova’ como ‘parceiro do Corinthians’, para execução de serviço de auditoria, a custo de R$ 1.050.000,00, que, efetivamente, apesar de pago, não foi executado.


Segundo o Sr. Salerno, assim que surpreendido com a notificação, Roberto arrumou as coisas e fugiu, apesar de constar no contrato social da concessionária, até então, com 10% das cotas sociais (em nome da empresa Curvex, da qual era proprietário).

Na sequência, em 19 de junho de 2019, em reunião extraordinária, os sócios da ‘Nova Veículos’ deliberaram, por unanimidade, pela expulsão do cartola da empresa.

Corinthians e ‘Nova Veículos’

Antes de imaginar que poderia assumir cargos importantes no Corinthians, Roberto era conhecido no Parque São Jorge como ‘da Nova’, singelo vendedor de veículos de uma concessionária GM situada à Avenida Celso Garcia, em frente à rua São Jorge.
Por conta desse comércio e da proximidade com o clube, as relações de amizade foram se estreitando.
Roberto entrou na ‘Nova’ no início dos anos 90, na condição de vendedor, sendo registrado como ‘gerente de vendas’ a partir de 01º de março de 1994, recebendo pouco mais de 400 URVs (reais), mais percentual sobre comissionamento das vendas da filial Tatuapé.

O cartola permaneceu assim até 01º de outubro de 2004, quando deixou de ser funcionário para tornar-se administrador do local, passando a figurar no contrato social pouco antes, em 08 de setembro, com percentual de 1,99%.
Nesse período já era tratado como pessoa de absoluta confiança de Mauro Salerno, o verdadeiro proprietário da ‘Nova’.
Razão pela qual, desde então, passou a ter ‘carta branca’ para comprar, pagar, contratar, demitir e gastar o dinheiro da empresa como julgasse necessário, o que acabou por facilitar os golpes que serão revelados adiante.
Em síntese, Roberto mandava na filial do Tatuapé e Salerno cuidava das demais.

Foi então que as reuniões da ‘Renovação e Transparência’, vez por outra, começaram a ser realizadas na sede da concessionária, ocasiões em que foram definidos líderes, a candidatura de Andres Sanches, o golpe em Alberto Dualib, entre outras coisas.
Daí por diante, a medida que Roberto ‘se dava bem’ no Corinthians, ainda que ocupasse cargos ‘sem remuneração’, passou a ampliar não apenas seu poder na ‘Nova’, mas também o patrimônio pessoal.
Em fevereiro de 2009, o cartola foi eleito vice-presidente alvinegro na chapa de Andres Sanches, para, através de pedido dele, assumir, em 2010, o departamento de futebol alvinegro.
No ano seguinte, em abril de 2011, Roberto Andrade conseguiu dinheiro para comprar mais 8% de participação na ‘Nova’.
O negocio, segundo informações, girou em torno de R$ 5 milhões, sem que exista registro bancário de pagamento.
Para efetivar a transação, retirou-se como pessoa física da sociedade e ingressou com a Curvex Participações, que passou a ser detentora de 10%.
Salermo fez o mesmo procedimento, passando seus 90% para a MBS Participações, da qual detinha controle.

Fazia um ano, porém, segundo o dono da ‘Nova’, que Andrade estaria roubando a empresa, em associação com uma estelionatária, concomitantemente ao exercício de diretor do Corinthians.
Depois disso, Roberto permaneceu ainda um bom tempo no departamento de futebol até ser eleito, no dia 07 de fevereiro de 2015, presidente alvinegro, cargo em que permaneceu até 03 de fevereiro de 2018.
Foi nesse ‘meio tempo’ que o segundo golpe, relatado pelo Sr. Salerno, passou a acontecer.
Desde que assumiu protagonismo no Corinthians a vida financeira e patrimonial de Roberto Andrade evoluiu.
Se, de fato, gerou prejuízo de R$ 6 milhões à Nova Veículos, ainda que tivesse colocado toda essa quantia no bolso, descontando as necessidades básicas de subsistência, seria improvável que possuísse, em dezembro de 2018, patrimônio declarado, oficialmente, à Receita Federal, de R$ 12,4 milhões.
Vale lembrar que no Corinthians todos os cargos ocupados por Roberto não possuíam remuneração.
O homem de R$ 12,4 milhões

O Blog do Paulinho teve acesso à declaração de Imposto de Renda de Roberto Andrade, com bens avaliados, em dezembro de 2018, no valor de R$ 12.436.692,04.
Pouco menos do que em 2017, quando dizia possuir R$ 12,9 milhões.
Ao todo, Roberto revelou-se proprietário de oito imóveis, além de uma luxuosa moto BMW (já vendida).
Levando-se em consideração que, em regra, declara-se ao Fisco os valores venais das propriedades, raramente os comerciais, pode-se supor que a fortuna do ex-presidente do Corinthians estaria, de fato, próxima da casa dos R$ 20 milhões.
Confira a relação completa dos bens:
- apartamento em Bertioga, avaliado em R$ 313 mil;
- casa em Barueri, avaliada em R$ 2,5 milhões;
- dois conjuntos comerciais (sem indicação de endereço) avaliados em R$ 836.681,04;
- quatro salas comerciais no Edifício Keberc, avaliadas em R$ 2,9 milhões
- moto BMW, com valor de R$ 94,9 mil.
- previdência privada no Itaú – R$ 363.078,00



Embolsando, indevidamente, adiantamento salarial

Antes de chegarmos aos detalhes dos delitos principais, logo após ser expulso da ‘Nova Veículos’, Roberto Andrade, no dia 11 de novembro de 2019, recebeu outra notificação, datando prazo de cinco dias para que devolvesse adiantamento salarial, concedido a si próprio, sob alegação de pagamento de plano de saúde.
O valor a ser devolvido, antecipado em março de 2019, era de R$ 158,4 mil.
Até o momento a ‘Nova’ não recebeu a quantia.

O Golpe da ‘Fort Paulistana’ com a utilização do Corinthians

Gean Carlos Barbosa
No dia 16 de junho de 2015, Roberto Andrade, na condição de administrador da ‘Nova Veículos’, assinou contrato para a realização de diversos serviços, entre os quais de auditoria, com a ‘Fort Paulistana Gestão Empresarial Ltda’.
A remuneração acertada foi de R$ 1.050.000,00, em 15 parcelas de R$ 70 mil.
Para convencer o Sr. Salermo, embora nem fosse necessário, Roberto Andrade, que há quatro meses ocupava a presidência do Corinthians, alegou que a empresa teria prestado serviços de consultoria e assessoria ao clube.

O Blog do Paulinho não encontrou, nos balanços alvinegros, nenhuma menção à referida parceria.
Porém, ao investigarmos o proprietário da ‘Fort Paulistana, o Sr. Gean Carlos Barbosa, encontramos evidências robustas de que poderia se tratar de um golpista.
Soubemos, também, que a ligação com Roberto se deu quando o sujeito, vez por outra, direta e indiretamente, aliciava jogadores da (e para) as categorias de base do Corinthians.
Talvez fosse esse tipo de ‘assessoria’ a que se referia o então presidente do clube.
Gean, em janeiro de 2016, aproveitando-se dessa ‘amizade’, resolveu constituir, ainda que somente no papel, a ‘GC Barbosa Gerenciamento de Carreira Desportiva’, que, em 25 de outubro de 2019, foi prenotada pela Receita Federal.
A fiscalização descobriu que o ‘empresário’ trabalhava com duas numerações de CPFs: ‘235.617.618-79’ e ‘913.680.145-34’.

O documento utilizado por Gean, que se apresenta como advogado (apesar de não possuir inscrição na OAB) no contrato com a ‘Nova Veículos’, a partir desse dia, deixou de existir.




Logo que a ‘Fort Paulista’, supostamente, começou a trabalhar nas contas da ‘Nova’, em vez de pagar os R$ 70 mil mensais, conforme previsto em contrato, ‘generosamente’, Roberto decidiu adiantar as parcelas, com direito a quitar, de cara, R$ 500 mil, através da transferência de um BMW M6, placa FWW – 1555, de propriedade, até então, da concessionária.
Nos meses subsequentes, novas antecipações aconteceram, todas ordenadas pelo então presidente do Corinthians:


Em 2018, período em que começou a desconfiar do comportamento de Roberto Andrade, o Sr. Salerno realizou, por conta própria, checagem de todos os negócios realizados pela ‘Nova Veículos’ do Tatuapé.
Constatou, entre outras coisas, a inexistência do serviço prestado pela ‘Fort Paulistana’ e a incrível quitação, antecipada, do contrato.
Estelionato continuado

No ano de 2010, a estelionatária Ângela Cristina Lopes, segundo o Sr. Mauro Salerno, em conluio com Roberto Andrade, passou a aplicar golpes dentro da sede da ‘Nova Veículos’, gerando prejuízo, de R$ 4,4 milhões (após a publicação, soubemos, a empresa perdeu outra ação, de R$ 900 mil, aumentando o rombo para R$ 5,3 milhões).
Tratava-se de um procedimento ousado, impossível de ser executado sem a anuência do administrador, e, provavelmente, de alguns policiais.
Ângela, de vez em quando, surgia na ‘Nova’ e, sem ser obstada, agia como se fosse funcionária, ‘comercializando’ os veículos ali expostos.
Na hora de fechar o negócio, recebia o valor de entrada e dizia que o carro seria entregue em alguns dias.
O comprador, com toda a operação realizada dentro da empresa, sentia-se seguro e fechava o negócio.
Ao comparecer para retirar o carro, o cliente era informado que Ângela não era funcionária e que havia caído num golpe.
Após realizado o Boletim de Ocorrência, a desculpa de Roberto era a de que a ‘Nova’ também era vítima da estelionatária.
Porém, quando os casos esfriavam, o procedimento se repetia, com os mesmos protagonistas.
Ao verificar as ações judiciais, o Sr. Salerno percebeu que quando os clientes lesados processavam a empresa, Roberto, como se quisesse abafar os problemas, sem muita discussão, agia para ressarci-los, razão do valor de mais de R$ 5 milhões em prejuízo.


No ano de 2012, em depoimento, Ângela entregou a participação de Roberto Andrade, exibindo extratos bancários com dois repasses de dinheiro à conta do cartola.
R$ 115 mil em 31 de maio de 2010 e R$ 90 mil em 29 de julho de 2010:


Esse caso acabou arquivado, após a ‘Nova Veículos’, por ordem de Andrade, ressarcir o prejuízo do cliente.
Anos depois, finalmente, Ângela foi condenada a cinco anos de prisão pela prática de onze estelionatos, todos cometidos na sede da ‘Nova Veículos’.
Roberto Andrade declarou, em setembro de 2018, em depoimento policial, que ‘nunca teve contato direto com Ângela”, porém, em 2019, após análise documental, o Sr. Salerno teve acesso ao processo ‘abafado’ e descobriu os depósitos na conta daquele que, até então, era seu homem de confiança.
Questionado pela empresa, através de advogado, em abril de 2019, o ex-presidente do Corinthians mudou a versão e disse que recebeu o dinheiro de Ângela em transações pessoais entre eles, sem envolvimento da concessionária.


Por conta desses fatos, o Sr. Salerno registrou Boletim de Ocorrência contra Roberto Andrade, no 52º DP do Parque São Jorge, em que boa parte dos policiais mantém grande apreço pelos cartolas do Corinthians.
Não deu outra.
Apesar das provas eloquentes, no dia 25 de agosto de 2020, há pouco mais de um mês, o delegado Eduardo Luis Ferreira assinou compreensivo relatório acatando as colocações defensivas de Roberto Andrade.

O Ministério Público, porém, não engoliu e, três dias depois, em 28 de agosto, prosseguiu com as investigações, solicitando documentações ao banco Bradesco, depoimento de Gean Carlos Barbosa e que Roberto de Andrade comprove os serviços realizados pela ‘Fort Paulistana’.
As apurações seguem em andamento.

A matéria comprovou que Roberto de Andrade, desde que assumiu a diretoria de futebol do Corinthians, ampliou o patrimônio para oficiais R$ 12,4 milhões (que, comercialmente, escoram-se nos R$ 20 milhões).
É indiscutível, acatando-se ou não as explicações do cartola alvinegro, que a estelionatária, condenada a cinco anos de prisão por golpes dentro da ‘Nova Veículos’, depositou valores em sua conta corrente.
Outra certeza é a de que, apesar de não publicada nesta matéria, mas de fácil verificação no TJ-SP, a folha corrida de Gean Carlos Barbosa, indicado por Roberto a pretexto de ter trabalhado no Corinthians, possui diversos processos por emissão de cheques sem fundo e calotes em notas promissórias, além de apresentar-se como advogado sem possuir OAB e atuar no mercado com CPF fajuto.
Se o cartola roubou seu ex-sócio – e o Sr. Salerno afirma que isso aconteceu, o Ministério Público, talvez, consiga esclarecer, apesar de que, na opinião deste Blog, os documentos disponibilizados nessa postagem são mais do que suficientes para entender o comportamento de Roberto Andrade, não apenas na vida empresarial, mas também na administração recente do Corinthians.
