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Blog do Paulinho

A destruição da família

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

A cada notícia em que a ‘família’ é exaltada por um bolsonarista em apuros, fico aliviada que a minha não seja assim

O IBGE de 2010 já mostrava uma tendência de configurações familiares não tradicionais, mas o bolsonarismo insiste que há um só modelo, o deles: papai, mamãe e filhinhos. Nessa ordem de importância porque quem manda na casa bolsonarista é o homem, mesmo que o dinheiro seja da mulher.

A cada notícia em que a “família” é exaltada por um bolsonarista em apuros, fico aliviada que a minha não seja assim. Manuela Pinheiro, mulher do ex-presidente da Caixa, Pedro Guimarães, classificou as denúncias de assédio contra seu marido como “ataques deliberados e impiedosos com o objetivo único de destruir nossa família”. Só faltou culpar as feministas pelo fato de que seu marido não pode chamar uma funcionária ao seu quarto de hotel, tarde da noite, trajando uma cueca.

Manuela pode não ter culpado, mas não faltou quem o fizesse. Numa página bolsonarista os comentários sobre o caso eram no seguinte tom: “Por que a palavra de uma mulher tem que valer mais do que a de um homem?”, “Desde quando mão na cintura é assédio sexual?”, “O que a esquerda quer com esse caso?”, “Economista bem-sucedido, quantas mulheres não querem ele só por interesse financeiro?”, “A maldade é humana, não masculina”, “Muita mulher aproveitadora usando isso para destruir a imagem de um homem”.

Todas essas manifestações foram feitas por mulheres. Vou ali vomitar e já volto.

Na alegria e na tristeza já não é o suficiente. Nas cerimônias de casamento deveriam incluir juras de lealdade em casos de assédio, estupro de vulnerável, violência doméstica. São alguns dos exemplos do que a “família” tradicional acoberta desde sempre, mas com o advento do bolsonarismo assume com orgulho nunca visto antes.

A fachada da “família” desmorona. Há rachaduras nos valores cultuados, mas não praticados por gente que se considera modelo para a sociedade. A cada denúncia, morrem os argumentos de que as mudanças culturais são as ameaças à família “tradicional”. O que implode essa estrutura patriarcal não é o feminismo ou o casamento gay, mas a intolerância a práticas criminosas disseminadas que ainda acontecem e com a conivência de muitas mulheres.

Violência doméstica é tolerada no seio de muita família de bem, assim como estupro de vulnerável acontece dentro de casa. Os mesmos lares que expulsam homossexuais, defendem que uma criança mantenha uma gravidez e acham que assédio é histeria de feminista. Se esse tipo de “família” será destruída por denúncias como a que enfrenta Pedro Guimarães, pode detonar a bomba.

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