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Blog do Paulinho

Ao legalizar o jogo, Câmara aposta no bicho errado

Da FOLHA

Por ALVARO COSTA E SILVA

Donos do negócio há 130 anos, bicheiros já fizeram sua transição para a modernidade

Um de meus personagens inesquecíveis é o Pinguim. Não o arqui-inimigo do Batman, mas o bicheiro da Glória. Calçava sapatos de duas cores e bico fino, locomovia-se com dificuldade, equilibrando-se num gingado de pernas curtas. Falava de coisas que então não faziam sentido: uma escola de samba chamada Beija-Flor, que chegara para acabar com o domínio da Portela. Bebia Caracu com dois ovos no bar do Reis, ao lado de onde se anotava a aposta nos talões que ele depois rubricava caprichosamente. Gerente da banca, no fim do dia recebia pacos de dinheiro, esperava na esquina um carro preto e ia embora. Parecia, mas não andava armado.

Um tipo como o Pinguim, com suas unhas manicuradas, ficou no passado. Mudou o mundo, mudou o jogo do bicho, contravenção penal que existe desde o fim do século 19 e que o Congresso agora pretende legalizar no mesmo pacote que inclui bingos e cassinos.

De olho na arrecadação de impostos —R$ 4,5 bilhões por ano—, deputados federais e senadores deveriam antes fazer um curso intensivo sobre o bicho. Saber que o barão de Drummond não tinha dinheiro para manter seu zoológico e foi socorrido pelo mexicano Manuel Zevada, que propôs explorar o jogo, em 1892. Que um filósofo de método confuso notou que a bicharada em pouco tempo tinha se transformado em instituição nacional sob a guarda das autoridades satisfeitas com a propina.

Que nos anos 60 e 70 havia estreita relação dos capos do bicho com a ditadura militar, cujas ações não só protegeram como fortaleceram a jogatina organizada, hoje ligada ao tráfico de drogas e às milícias. Que se vive um momento delicado, com disputas familiares pelo poder, guerra pelos territórios e a transição para a modernidade —quando o escrito não vale mais e o pagamento é na chave Pix.

Um projeto de lei que altere esse contexto é mais difícil do que acertar uma milhar do avestruz ou do burro na cabeça.

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