Bolsonarismo equivale fake news a meme, nazismo a comunismo, armas a paz

Da FOLHA

Por RENATO TERRA

Método do presidente e seus asseclas de confundir para conquistar leva pessoas a acreditarem no que quiserem

Vacina é ruim. Agrotóxico é bom. Nazismo é igual a comunismo. Há racismo reverso. Armas promovem a paz. Rachadinha não é corrupção. Meritocracia é ser filho do presidente.

É oficial. O bolsonarismo misturou tudo numa pasta disforme para que não se possa distinguir o que é fato do que é narrativa. O que é tchauzinho do que é uma saudação nazista. O que é um símbolo de “OK” com os dedos ou um sinalzinho para os supremacistas.

Ou então: o que é meme e o que é fake news.

Esta semana, por ocasião da viagem de Jair Bolsonaro à Rússia, o ex-ministro Ricardo Salles postou uma imagem com a logomarca da CNN e a manchete: “Putin sinaliza recuo na Ucrânia, presidente Bolsonaro evita a Terceira Guerra Mundial”.

A CNN se apressou em publicar: “CNN não noticiou que presidente Bolsonaro evitou guerra”. Embaixo da manchete, pôs um selo de “fake news” na imagem propagada por Salles. Pressionado, o ex-ministro alegou que se tratava de um “meme”.

O humor pode se tornar um álibi confortável para quem quer espalhar mentiras. E isso pode apontar (mais um) caminho perigoso nestas eleições. “Ah, era um meme”. “Ah, era uma piada”. “Ah, o que eu disse foi tirado de contexto”. “Ah, eu tava bêbado“.

A confusão faz parte da estratégia. Enquanto o mundo real se move, no Telegram a manchete circulou: “Putin sinaliza recuo na Ucrânia, presidente Bolsonaro evita a Terceira Guerra Mundial”.

Num discurso oficial, Jair Bolsonaro aumentou a confusão: “Mantivemos a nossa agenda. Por coincidência, ou não, parte das tropas deixou a fronteira”, disse. A declaração do presidente também circula nas redes de Telegram, nas redes sociais, em todo lugar. Quem quiser pode juntar as coisas e acreditar. Afinal, acreditaram na mamadeira de piroca. Acreditaram que a vacina implantava um chip.

A pasta informe criada pelos bolsonaristas desacredita a imprensa, desacredita os veículos de checagem. Já não se sabe o que é realidade, o que é fake news, o que é piada. Nessa confusão propositalmente criada, as pessoas acreditam no que querem acreditar.

Raul Seixas cantou a pedra: “É na cidade de cabeça pra baixo/ A gente usa o teto como capacho/ Ninguém precisa morrer/ Pra conseguir o paraíso no alto/ O céu já está no asfalto”. Ou foi Regina Duarte quem disse isso? Foi o Morgan Freeman? Era uma música? Raul era de esquerda? Era de direita? Morreu de Covid?

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