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Blog do Paulinho

3ª via, até agora, mais exclui do que inclui. Quer falar com quem?

Da FOLHA

Por REINALDO AZEVEDO

Cuidado com as bolhas! Não se enganem: pode-se ganhar uma guerra de memes, mas perder a eleição. A maratona mal começou

A dita “terceira via” —nome tolo— não conseguiu, até agora, ser bem-sucedida em desbancar Jair Bolsonaro do segundo turno porque, em termos estruturais, repete parte de sua estratégia, que consiste em tentar eliminar do jogo o PT e a base social que ele representa. Se bem-sucedida, manteria o país em conflagração ideológica permanente. Lembram-se? “É a política, estúpido!”

É difícil competir com o cara no lamaçal da indignidade política. As aspirações políticas obscenas que ele vocaliza não combinam com modos à mesa, também os da civilização que superou a guerra de todos contra todos.

Para ser um deles, é preciso combater as vacinas; usar coturnos em visita a chefe de Estado; recitar divisa fascista em encontro entre iguais; tratar o arroto como um dos modos da liberdade de expressão e contar piada de bilau em churrascada. O reacionarismo rejeita o pudor, e “a cadela está sempre no cio”. Essa minha caricatura hostil, não se enganem, esculpe em carrara o herói de milhões de pessoas.

Como apontam as pesquisas, postulantes à tal “terceira via” não conseguiram, até agora, rivalizar com o “Mito” porque não têm como suplantá-lo nem nos transes da ventura nem nos dons do pensamento. Ainda que intentassem uma competição na brutalidade —Sergio Moro ensaia—, é pouco provável que atraíssem a patuleia do “capitão”. E, adicionalmente, afastariam os que, sendo refratários à esquerda, rejeitam o vale-tudo.

Inexiste bolsonarismo sem o antipetismo fanático. Nas palavras do presidente e de seus seguidores, PT e petistas deveriam ser banidos da política, talvez do Brasil. Caso reeleito, dará continuidade à “guerra cultural” restauradora: contra as esquerdas —ou tudo aquilo que eles cismarem que assim tem de ser chamado.

A palavra não define um conteúdo. E só uma pecha para desqualificar desafetos. A exemplo de todo reacionário delirante, o “Mito” tem uma “Idade do Ouro” na cachola — aquele passado, que nunca existiu, em que tudo teria sido belo, bom e justo.

Ele dirige sua pregação a milhões que veem o mundo caído em tentações em razão da ação deletéria de comunistas, ateus e gays. Uma multidão o leva a sério. Vejam lá: o restaurador se encontra com Putin e diz que ambos são parceiros na defesa dos “valores da família” —senha para a homofobia— e na “crença em Deus”.

O ex-agente da KGB, que considera o fim da União Soviética “a maior catástrofe geopolítica do Século 20”, deve ter pensado: “É ainda mais idiota do que parecia”. Idiotia que tem sua eficácia. Também na Rússia…

O amigo de Queiroz jamais afirmou que queria “governar todos os brasileiros”. Ele não quer. A demonização do inimigo não é mera crispação retórica. O apocalipse da restauração é fachada de um governo perverso com o mundo do trabalho, com os direitos sociais, com as minorias, com a segurança pública, com o meio ambiente —com tudo o que lembre futuro. E há os beneficiários econômicos dessas escolhas do delírio da reação.

Qual é a aposta impossível que os postulantes à terceira via fizeram até aqui, abraçados a seu “nem-nem”? Respondo com uma síntese. Bolsonaro quer todos, menos o PT e associados; a terceira via quer todos, menos o PT e Bolsonaro —aumentando o campo da exclusão—, e Lula quer todos, menos Bolsonaro, notando, no entanto, que nunca hostiliza o eleitorado não ideológico do seu antípoda.

O acerto do ex-presidente não é apenas político. É também matemático. E Ciro? Não difere no jogo do “nem-nem”, mas com viés à esquerda. Com quem isso a que chamam “terceira via” está disposta a falar?

Encerro com o parágrafo da dúvida, que pede para entrar no texto. A eventual composição de federações pode trazer novidades. O presidente não está morto. O líder petista tenta ampliar ao máximo as alianças porque sabe que o embate não será fácil —e governar pode ser ainda mais difícil do que vencer. O antibolsonarismo realmente militante também é uma bolha: o turista apalhaçado da Rússia e da Hungria, do qual é fácil mangar, é visto como herói autêntico pela outra bolha. Não se enganem: pode-se ganhar uma guerra de memes, mas perder a eleição. A maratona mal começou.

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