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Sem Marx e sem Jesus

De O GLOBO

Por MIGUEL DE ALMEIDA

Por que dar a vida?

Uma pena que o Bozo não pratique o debate de ideias e esteja afastado (desde os tempos de cabo) dos livros. Assim, não imagino o que pensaria da constatação do filósofo francês Luc Ferry, ministro da Educação no governo de Jacques Chirac: acabaram as paixões, e lá se foi o tempo de dar a vida pela política, religião ou qualquer outra criação humana.

Por que motivo você daria sua vida? Ou melhor: existe algo que vale sua vida?

Outro filósofo, o romano Lúcio Sêneca, alertava contra as emoções desmedidas. Em sua visão, os exageros dos sentimentos obnubilam a existência. Pregava algo como o esquecimento das paixões.

Sêneca, tutor de Nero, foi depois condenado à morte por seu ex-pupilo, o imperador paranoico, espécie de Bozo da Antiguidade. Diante da demora do efeito do veneno, rasgou as próprias veias. Matou-se não por paixão, mas por ética.

Por que ideia alguém hoje tiraria a própria vida? Para a defesa da pátria?

As indolentes motociatas bozofrênicas emolduram a ausência da paixão política. Em São Paulo, onde até almoço de batizado tem fila, apenas 6 mil e tantos motoqueiros compareceram à convocação. É um nada. Para não pagar pedágio, motoqueiro de final de semana topa até lavar a cabeça. Impressionava, sim, o número de policiais colocados na segurança dos tiozinhos da motocicleta: cerca de 1.500. Algo como um guarda para cada quatro bozominions.

Nos Estados Unidos, a invasão do Capitólio impressionou mais pelas fantasias dos militantes que pelo número de sediciosos. Durante meses, Trump fez sua convocação para o ato, e o que se viu era uma plateia inferior a uma final de Super Bowl.

A queda do Muro de Berlim, em 1989, talvez possa ser o marco do fim das grandes paixões. Ali se viu a ruína de um projeto equivocado, corrompido por ganância, hipocrisia e autoritarismo. Além da falta de liberdade. Os bolcheviques quiseram matar algo imanente ao ser humano, a curiosidade em descobrir o novo. Não houvesse iniciativa, o Homo sapiens ainda viveria nas cavernas.

A decepção com o retrato da razia soviética, vista como inauguração da era do individualismo, consagra, na década de 1980, o espírito do yuppie — o canibalismo das relações, o marketing pessoal e a ostentação opaca das marcas.

O fim de um sonho coletivo, ao dar lugar apenas a uma aventura individual, curiosamente ressuscita modelos deixados à margem pelos movimentos da década de 1960. Como boias de sobrevivência de um mundo perdido, retornam à baila a dita família papai-mamãe e, ainda, a religião (de resultados).

Quem se habilita a perder a vida pela família ou pela religião? Vai longe esse tempo. Nem o Malafaia nos daria essa graça.

A dinâmica da sociedade e a entrada na era digital (imagine, em 20 anos saímos do fax para a inteligência artificial) por certo repetem o mesmo receio do futuro experimentado pelos ingleses à beira da Revolução Industrial. Um medo que resultou em algumas das ideias e análises de Karl Marx, quando também explodiram tensões religiosas, nacionalistas e políticas.

Ao contrário daquele momento da História, quando foram gestadas grandes ideias (ou utopias), do liberalismo ao socialismo, o individualismo da contemporaneidade oferece os conceitos de cloroquina e da Terra plana. Mais motociatas nos fins de semana. No lugar de vacinas, passeios com dinheiro público.

Talvez antes houvesse razão em dar a vida pela revolução ou na crença de uma instância celestial. Mas são utopias dissolvidas na história construída pelo próprio homem. Ao inventar Deus e depois matá-lo; ao se ver incapaz de trazer o paraíso celestial ao plano terrestre, entregou suas utopias maiores para abraçar sonhos mesquinhos.

Basta olhar em volta. Não precisa ir muito longe.

Hoje o Bozo oferece pedágio livre aos motoqueiros! Linha de crédito barato apenas para os policiais. Sombra e água fresca para os militares. Ancorado em seu terceiro casamento, defende a família — mas qual delas? (Vale lembrar que comunista casa menos.) Um crédulo de Malafaia, quer armas para toda a população. Dizia que a ditadura militar matou poucos opositores, e agora seu governo está diante da cifra de mais de 500 mil mortos. Em breve, a nota de três reais com a estampa do Queiroz.

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