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Primeiro Cartel da Capital

Da FOLHA

Por JOÃO WAINER

Diferenças entre o PCC e facções internacionais dizem muito sobre o Brasil

Um banho de sangue promovido por oito presos na Casa de Custódia de Taubaté deu origem ao Primeiro Comando da Capital em 31 de agosto de 1993. Vinte e oito anos depois, a facção tem mais de 30 mil membros, é a principal exportadora de cocaína para a Europa e se transformou na maior organização criminosa da América Latina, superando até os cartéis colombianos que brilharam nas últimas décadas e tiveram suas histórias amplamente contadas no cinema e na literatura.

Hoje, para a polícia antidrogas americana DEA, Marcola já figura ao lado dos grandes traficantes internacionais como Pablo Escobar, El Chapo e Gilberto Rodriguez. Apesar da fortuna feita com o tráfico da mesma cocaína que construiu esses impérios do crime no passado, existe uma diferença básica entre o PCC e essas facções internacionais, o que diz muito sobre o Brasil.

Os grandes cartéis colombianos e mexicanos surgiram a partir da organização de bandidos que fizeram fama, fortuna e espalharam o terror nas ruas de seus países. Seus respectivos governos levaram anos, gastaram (e ganharam) fortunas derramando muito sangue até conseguir prendê-los.

Já o PCC surgiu dentro da cadeia, por meio da organização de bandidos que já estavam presos e sob custódia do estado brasileiro, que conseguiu a façanha de permitir que uma pequena facção com oito membros se transformasse em uma das maiores organizações criminosas do mundo.

O sucesso dessa organização criminosa é um reflexo direto do desastre que foram as políticas de segurança pública adotadas nas últimas décadas, que ao invés de combater acabaram ajudando e fortalecendo o crime.

Antes do PCC dominar o sistema penitenciário, as cadeias eram pura selvageria. Assassinatos e estupros eram rotina, vigorava a lei do mais forte e do cada um por si. A polícia também fazia sua parte para deixar ainda pior a vida dos detentos. Além de não cumprir a lei de execuções penais, matava e torturava de forma sádica, um comportamento que culminou no massacre do Carandiru, onde 111 presos foram assassinados em 1992.

Com tanta opressão e maus tratos por parte de quem deveria ressocializar, não foi difícil unir os presos em torno de uma ideia sedutora: enfrentar o sistema opressor.

O nível de barbárie que o sistema penitenciário atingiu foi a força motriz de sua criação. Se a lei de execução penal fosse cumprida minimamente, não haveria espaço para a facção existir. Esse foi o primeiro grande erro de uma sucessão de medidas que fez o Primeiro Comando da Capital ganhar cada vez mais força.

Em outra manobra nada inteligente do governo, dois irmãos italianos da máfia Camorra foram colocados nas mesmas celas em que estavam alguns dos líderes do recém-criado PCC. Eles ensinaram aos bandidos brasileiros o conceito italiano de Máfia, de família, lealdade, e ajudaram a criar um estatuto com regras que deveriam ser seguidas em todas as cadeias e quebradas de São Paulo.

O “turismo penitenciário”, como são chamadas as constantes transferências de presos entre cadeias no interior, foi outra grande ajuda oficial para a disseminação das ideias do PCC. Aos poucos, todo o sistema foi sendo cooptado para o projeto da facção, e à medida em que os presos eram postos em liberdade, a ideologia do partido do crime ia também tomando conta das ruas.

Enquanto o estatuto do crime se espalhava e a facção batizava novos membros, o então secretário de segurança pública afirmava para a imprensa que o PCC não existia e que aquilo não era uma facção, mas, sim, uma ficção. Negar sua existência foi outra atitude excelente para os criminosos . Eles puderam crescer em silêncio.

Com ações cinematográficas como a megarrebelião em 2001, quando 29 presídios se rebelaram simultaneamente, ou com os ataques à polícia em 2006, a organização mostrou força e poder, obrigando o governo a sentar na mesa de negociação com seus líderes.

A facção apostou no tráfico de drogas como carro-chefe, deixando em segundo plano outros tipos de crime. Para que o tráfico prospere é necessário que haja paz. Foram criadas regras rígidas que diminuíram a taxa de homicídios em São Paulo. Com a aparente tranquilidade, a organização criminosa seguiu crescendo e faturando exponencialmente sob as barbas do Estado.

Rapidamente o partido deu o passo seguinte: cortar os intermediários e buscar a droga diretamente na fronteira. Os primeiros relatos de viagens de membros do PCC para o Paraguai e Bolívia datam de 2008. Apenas oito anos depois a facção já dominava integralmente a região. O assassinato de Jorge Rafaat, o antigo “Rei da Fronteira”, em Pedro Juan Caballero representou uma tomada de poder oficial da facção, uma espécie de cerimônia de posse macabra da nova liderança em 2016.

O PCC finalmente consolidou a rota e criou um corredor de exportação através de seu território para levar a cocaína das regiões produtoras na Bolívia e no Peru até o porto de Santos. Na baixada santista, a droga é embarcada em navios e cruza o Atlântico para ser recebida por membros da Máfia Siciliana Ndrangheta, principal parceira internacional do PCC que cuida da distribuição no velho continente em um negócio que gera milhões de dólares.

O excesso de dinheiro, porém, virou um problema para o PCC. Lavar essa fortuna que começou a jorrar não é uma tarefa fácil. Especialistas alertam para o fato de que presos da Lava Jato e operadores de crimes financeiros estiveram muito próximos de membros do PCC em presídios federais e poderiam ter passado esse conhecimento fundamental para o crescimento da organização em mais um favor inenarrável do Estado brasileiro.

Parte dessa história está contada na série “Primeiro Cartel da Capital”, que dirigi em 2019 para UOL.Mov. Novos episódios estão em produção e serão lançados nos próximos meses.

Dizem na fronteira que o PCC é como um formigueiro. Quanto mais você cutuca, mais formiga sai. Eles dominaram tudo porque são muitos, e eles são muitos graças à ineficaz política de guerra às drogas exportada ao mundo pelos Estados Unidos.

Enquanto toneladas de cocaína embarcam todos os meses para a Europa, a polícia segue enchendo as cadeias com jovens pobres, em sua maioria negros, e fornecendo ao PCC soldados para seu exército. A guerra às drogas, que sempre foi usada como uma forma de controle da população negra, acabou alimentando o tráfico e fortalecendo as organizações que a polícia dizia combater, tornando possível o surgimento de uma organização criminosa tão grande que é hoje é quase impossível de ser destruída.

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