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Delírios paralelos

EDITORIAL DA FOLHA

Gabinete montado para a pandemia não buscava embate de ideias, mas mistificação

Tratando-se de um governo que dá continuadas mostras de transitar por mundos paralelos, não chegam a causar surpresa as evidências que se avolumam acerca da formação de um “gabinete de sombras” para assessorar o presidente Jair Bolsonaro no combate à pandemia do novo coronavírus.

O assim chamado gabinete paralelo, como se sabe, ganhou projeção com os trabalhos da CPI do Senado. Depois de ocupar a pauta de algumas sessões da comissão, o assunto amplificou-se após a divulgação de um vídeo que registra a proposta de uma estrutura de assessoramento ao governo.

A gravação mostra uma reunião de profissionais da área de saúde, em setembro de 2020, na qual o virologista Paolo Zanotto sugere a Bolsonaro a criação de um grupo à sombra para debater estratégias de enfrentamento da Covid-19, estratagema que pouparia os participantes do crivo da opinião pública.

A reunião é apenas uma peça de um conjunto de indícios sobre a existência de uma rede bolsonarista de aconselhamento, formada por especialistas com ideias peculiares sobre o que seria um “tratamento precoce” da doença, com o uso de drogas sem eficácia demonstrada —caso da cloroquina.

Na quinta-feira passada (3), a Folha trouxe à luz duas lives realizadas no ano passado com a presença do ex-assessor da Presidência Arthur Weintraub e do anestesista Luciano Dias Azevedo. Nas conversas são expostos detalhes da concepção e funcionamento da estrutura de assessoramento criada à margem do Ministério da Saúde.

Numa passagem, Azevedo diz que Weintraub (irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub) foi quem conectou os médicos do grupo, que municiavam Bolsonaro com ideias heterodoxas e fantasiosas sobre como combater o vírus.

Nos diálogos, ambos demonstram pouca preocupação com a falta de comprovação para as prescrições sugeridas e fazem blague com o uso de máscaras protetoras.

Nada impede um governante de colher opiniões de diferentes setores sobre assuntos relevantes para os destinos da nação. Ao contrário, trata-se de boa prática.

No caso em tela, contudo, o que se tem não passa de uma movimentação de marcante viés ideológico, com empenho em negar recomendações hegemônicas no meio científico e oferecer a Bolsonaro um kit de mistificações para alimentar suas convicções esdrúxulas sobre como gerir a pandemia.

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Um comentário sobre “Delírios paralelos

  1. Jose Ricardo

    Nunca antes nesse país o nível do jornalismo esteve tão baixo, essa gente sofre de Bolsonaro derangement syndrome e na ânsia de “derrubarem” Bolsonaro publicam qualquer coisa irrelevante ou inventam notícias para atingi-lo, mas, às vezes dá zebra e como ocorreu com certa jornalista da CNN que disse: “infelizmente tenho de dar uma boa notícia”, no caso era o aumento de empregos formais…. Já a Foice de S. Paulo usa como prova de sua narrativa de “governo paralelo” uma reunião “secreta” do Presidente com um grupo de médicos independentes. Contudo, muito diferente das reuniões de Lula com o José Carlos Bumlai ou Michel Temer com Joesley Batista, essas sim nada oficiais e muito menos republicanas, a tal reunião com esse grupo de médicos independentes simplesmente constava na agenda presidencial e foi transmitida ao vivo pelo Facebook. Baita barrigada, ou melhor baita pastel de vento da Foice…. Mas eles não desistem, já chamaram de “orçamento secreto” a peça orçamentária que tinha sido publicada no Diário Oficial e o que dizer da compra de leite condensado pelo Exército. Nem a moniquinha – a nossa jornalista amiga, segundo Lula -, ultimamente parece ter embarcado nessa vibe.

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