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A reunião da CBF com os clubes e a lembrança de uma cena de “Os Intocáveis”

Catálógo: Clássicos] Os Intocáveis | Bloggallerya

De O GLOBO

Por ANDRÉ KFOURI

Clubes brasileiros são pedintes que sofrem de síndrome de intolerância ao avanço, pois ainda não foram capazes de descobrir por que a CBF existe

Uma das célebres sequências de “Os Intocáveis”, obra de Brian De Palma sobre Eliot Ness e a operação que derrubou Al Capone, ficou conhecida como a “cena do taco de beisebol”. Em algo como dois minutos e meio, Capone (Robert De Niro) discursa pausadamente num jantar elegante sobre a importância do trabalho em equipe, enquanto os mafiosos presentes balançam a cabeça e se manifestam em bajulação. Um deles, porém, tinha um esquema paralelo para roubar a organização. Capone usa o taco para explodir seu crânio diante de todos. A cena termina com a câmera se afastando para o alto, exibindo o sangue correndo sobre a toalha branca, interrompendo a sobremesa dos convidados.

Não há como assistir aos vídeos da reunião entre a CBF e os clubes da Série A, divulgados pelo jornal O Dia, na semana passada, sem viajar de volta à atuação de De Niro e a maneira passivo-agressiva com que seu personagem se impõe e comanda a narrativa não só como se ali não houvesse mais ninguém, mas também eliminando qualquer possibilidade de oposição. O tom hierárquico, ameaçador, foi o mesmo empregado por Rogério Caboclo, inclusive com longas pausas preenchidas por um incômodo silêncio, em palestra aos cartolas dos clubes mais importantes do país. O único rascunho de debate foi uma minúscula participação de Maurício Galiotte, vetada por Caboclo, que ainda lhe estapeou com um “ótimo”, ao ouvir que o dirigente palmeirense não diria mais nada.

Há duas diferenças essenciais entre o filme e a reunião. A primeira, óbvia, é que a cena do taco de beisebol é uma peça de ficção e a conversa entre as cabeças pensantes do futebol brasileiro é uma patética realidade. A segunda, menos óbvia, é que no encontro por zoom dos cartolas não se usou um taco de beisebol. Em sentido figurado, é claro, mas provavelmente porque não foi necessário. A imagem do presidente da CBF olhando para a câmera de seu computador de cima para baixo, tratando os representantes dos proprietários do futebol brasileiro como cordeiros amedrontados revela o suficiente. A mudez dos que se prestam a esse tratamento comprova que, sim, Caboclo tem razão quando diz que eles “estão fodidos”. Não por causa do risco de o futebol parar, mas porque eles estão ali, como os que se sentaram à mesa redonda no filme de De Palma, para ouvir quietos e raspar o prato.

Curioso, pois as pessoas que desfrutam de relacionamento pessoal com Rogério Caboclo o descrevem como uma figura completamente oposta ao big boss implacável que surge nos vídeos. Como presidente da confederação, ele é compatível com o modelo Havelange-Teixeira-Marin-Del Nero na política de perpetuar os clubes como pedintes de uma CBF assistencialista, uma absoluta inversão do que deveria ser o funcionamento da estrutura de poder do futebol no país. E são pedintes que sofrem de síndrome de intolerância ao avanço, pois ainda não foram capazes de descobrir por que a CBF existe. Se tivessem um mínimo de visão coletiva, fariam reuniões não com um chefe ruim, mas com um executivo que trabalharia para eles, como se vê nas ligas esportivas que se dão ao respeito. Neste aspecto, o discurso de Al Capone sobre o trabalho em equipe lhes seria valioso, mas eles preferem o taco.

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