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O Palmeiras já perdeu

Da FOLHA

Por RODRIGO TAVARES

Em depoimento exclusivo à coluna, o presidente do Bayern de Munique, Herbert Hainer, fala sobre o compromisso do clube com a eficiência corporativa, transparência e sustentabilidade

Quase todos os principais clubes europeus de futebol são empresas, de capital aberto ou fechado. O primeiro a entrar na bolsa foi o Tottenham em 1983. O Bayern de Munique foi convertido em empresa em 2001. No Brasil, remando contra a maré, a maior parte dos clubes são associações civis sem fins lucrativos.

Uma das principais vantagens de transformar clubes em empresas, além de atrair novas fontes de capital, é garantir que as agremiações sejam governadas com a cabeça e não com o fígado.

Se cotadas, como acontece com o Manchester United ou o Benfica, têm que profissionalizar a sua gestão e prestar informações públicas sobre resultados econômico-financeiros. A governança torna-se mais transparente e eficiente. Os presidentes dos clubes passam a ser cobrados pelos acionistas. Além do Livro de Regras da CBF, os times brasileiros passariam a reger-se pela Lei CVM 6404/76.

Como empresas, os clubes têm também que assumir mais responsabilidades na área social e ambiental. Têm que prestar contas.

O Bayern de Munique, principal rival do Palmeiras na Copa do Mundo de Clubes que começa esta semana, adotou um programa de sustentabilidade corporativa de porte considerável. Em depoimento exclusivo à coluna, o presidente Herbert Hainer afirma que as questões ligadas à sustentabilidades são centrais na estratégia da empresa há muitos anos. O enfoque é na “sustentabilidade económica, sustentabilidade ambiental e sustentabilidade social.

Há mais de 20 anos que o clube gera lucros anuais. O seu estádio Allianz Arena, construído em 2005, é neutro em carbono. Além disso, “nossos jogadores dirigem carros elétricos, instalámos um enorme sistema fotovoltaico no telhado de um dos nossos estacionamentos na Allianz Arena, inventámos um sistema de copos reutilizáveis ​​para os jogos em casa e toda a iluminação usa tecnologia LED.” Em 2015, o clube tornou-se membro da Aliança Climática da Baviera, uma organização que visa promover o uso sustentável dos recursos naturais e adotar práticas de mitigação das alterações climáticas.

O terceiro pilar é na área social. “O Bayern tem um programa de auxílio a outros clubes em dificuldades financeiras” como aconteceu, no passado, com o Borussia Dortmund e o Eintracht Frankfurt. Contribui também para várias atividades filantrópicas na área da educação “como o programa Arena of Change, em cooperação com a ONG internacional Aldeias Infantis SOS.”

Herbert Hainer conclui dizendo que o compromisso social do clube “é uma força motriz com tanta importância quanto a nossa vontade de ganhar troféus.” E, olhando para o futuro, aponta que a sustentabilidade “terá ainda mais valor.”

Outros clubes alemães são referência. O Wolfsburg foi o primeiro no mundo, em 2013, a publicar um relatório anual de acordo com as diretrizes da Global Reporting Initiative, uma organização que promove a comunicação uniformizada de ações ligadas à sustentabilidade. No ano anterior, a federação italiana de futebol tinha sido a primeira a usar a mesma metodologia.

Como organizações capazes de galvanizar milhões de pessoas e moldar comportamentos, a responsabilidade corporativa dos clubes de futebol não pode ser descurada. Em 2010, foi criado o Responsiball Ranking que mede a performance ESG dos clubes de duas dezenas de ligas de futebol na Europa, Ásia e América do Norte. Na edição de 2020, anunciada o mês passado, os lugares cimeiros vão para a Bundesliga alemã (prova que o Bayern vence ininterruptamente desde 2012), a Ligue 1 francesa e a Allsvenskan sueca.

A K-League da Coreia do Sul, onde joga o Ulsan e a Liga MX do México, disputada pelo Tigres – ambos os times estão classificados para o Mundial de Clubes da FIFA – encontram-se na 8ª e 15ª posições. O ranking mede o desempenho dos clubes nas áreas de governança, relações com a comunidade e temas ambientais. Ao todo são considerados 46 indicadores. O Brasileirão não é contemplado.

As razões que deveriam inspirar empresas de futebol a se tornarem mais sustentáveis não é apenas moralista. Os clubes não têm que querer fazer o bem. É sobretudo uma questão financeira. Empresas sustentáveis são empresas mais bem governadas, mais ágeis, mais inovadoras, mais imunes a riscos, com acesso a capital mais barato e, por tudo isto, mais lucrativas. O Palmeiras pratica algumas ações relevantes de reciclagem de lixo e o seu estádio é certificado ambientalmente, mas o clube ainda não implementou uma estratégia de longo-prazo de integração de práticas de sustentabilidade em todas as operações.

À medida que os clube-empresas melhorem a sua performance em sustentabilidade, naturalmente passarão também a ser alvo de investidores que incorporam indicadores ESG em análises de risco e de investimento – com vantagens diretas para os clubes que terão acesso a capital mais competitivo e estratégico.

Outra vantagem está relacionada aos patrocinadores. Cresce o caudal de marcas que procuram apoiar apenas entidades beatificadas pelo Vaticano da sustentabilidade. Empresas, incluindo clubes de futebol, com desempenho pútrido em responsabilidade corporativa, corrupção e gestão ambiental têm menos valor no mercado da publicidade. Clubes de futebol detidos por grandes empresas listadas em bolsa (como o Wolfsburg da Alemanha controlado pela Volkswagen ou o coreano Ulsan propriedade da Hyundai) sentem uma pressão adicional para não defraudar as expetativas da empresa-mãe e dos seus acionistas na área da sustentabilidade.

Aconteça o que acontecer no Qatar, o Palmeiras já perdeu o campeonato da sustentabilidade e da governança corporativa. Em meio à euforia e ao imediatismo, este tema será visto como pouco relevante. Mas nunca é tarde para o Palmeiras, juntamente com todos os outros times brasileiros, tornar a sua gestão mais profissional e buscar diversificar as suas fontes de receita. O sucesso financeiro de um clube de futebol não pode estar dependente de um artilheiro ou de um técnico português.

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