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Quatro minutos

De O GLOBO

Por ARTUR XEXÉO

O presidente gostou tanto de 2020 que resolveu agradecer? Então, foi o único porque… eta que ano desgraçado!

Todo ano é a mesma coisa. O peru ainda está no forno e o prato de rabanadas já foi atacado. Os mais entediados aguardam o início do “Jornal Nacional’’ para sofrer com os exemplos de solidariedade que nos enchem de emoção e… culpa. No ano que vem, juro que me fantasio de Papai Noel e saio por aí distribuindo bicicletas e bonecas em orfanatos. Neste 2020, pelo menos, tenho a desculpa da pandemia. Sou grupo de risco. É melhor não aglomerar nem em nome do bem. Enfim, todo ano é a mesma coisa. Peru, rabanada, culpa e “Jornal Nacional’’ — este sempre com um pouquinho de atraso para deixar ir ao ar o pronunciamento do presidente da República.

Já faz tempo que deixei de prestar atenção nestes pronunciamentos de Natal. É uma data para se refletir, é o momento da família unida, que o ano que vem chegue cheio de esperança… Um clichê atrás do outro deixa a impressão de não se considerar o Natal um bom momento para se anunciar nada, repercutir nada, refletir sobre nada. Mas o presidente de ocasião é Jair Bolsonaro. Então, resolvi prestar atenção. Bolsonaro nunca perde uma oportunidade de espalhar besteira.

O pronunciamento, somado ao pequeno discurso de dona Michele — sim, a primeira-dama estava ao lado dele —, durou quatro minutos. Ele manteve aquele estilo claudicante de quem não sabe se chegará ao fim do teleprompter sem tropeçar. Ele revira os olhos para todos os lados, acompanhando o fim e o começo de cada linha, e, de vez em quando, sem motivo aparente, abre um sorriso falso. É tudo muito desagradável, mas foram só quatro minutos. Dava pra suportar.

Bolsonaro começou seu discurso dizendo que “inicialmente gostaria de agradecer a Deus e a cada brasileiro por este ano que está se encerrando’’. Foi aí que eu comecei a não entender. O presidente gostou tanto de 2020 que resolveu agradecer? Então, foi o único porque… eta que ano desgraçado! Ou ele agradeceu pelo fato de o ano estar se encerrando? Sobrevivemos, apesar de Bolsonaro. Isso, sim, é motivo para agradecer.

A certa altura, o presidente lembrou que o Brasil, ou melhor o “nosso Brasil’’ (para Bolsonaro, nunca é “o Brasil’’ ou “o país’’. É sempre o “nosso Brasil’’, a “nossa nação’’, como nas redações do ensino fundamental da década de 50 do século passado)… retomando, o nosso Brasil, nesta pandemia, tornou-se “uma referência para outras nações’’. Naquela noite, o país já contabilizava mais de 190 mil mortes pela Covid, e o presidente quer que a gente acredite que ele acredita que somos referência de qualquer coisa para qualquer outro país.

Quase no fim de sua fala, Bolsonaro afirmou que no dia 25 de dezembro festeja-se o Natal (que seria de nós sem um líder que nos lembrasse disso?), que ele definiu como “uma das maiores e mais importantes festas do cristianismo’’. Uma das? Que outra festa seria mais importante para o cristianismo além da que celebra o nascimento de Cristo?

Enfim, tudo foi um preâmbulo para a grande atração da noite: o pronunciamento de dona Michele. Não teve a menor relevância, mas ela mostrou que alguém na família sabe ler o teleprompter. Dona Michele dá de dez no marido em matéria de fluência.

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Um comentário sobre “Quatro minutos

  1. Renato oliveira

    Reparem que em momento algum ele falou da vacina. Em momento algum ele falou sobre as voltas às aulas. O meu filho é pequeno, não quero ele analfabeto. Disse que o Brasil é referência no tratamento de covid, tá de sacanagem com nossa cara, é muito grande a cara de pau. E a vacina, cadê a vacina? Fora Bolsonaro idiota e psicopata.

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