O messias que crucificou seu povo

Da FOLHA

Por DODÔ AZEVEDO

Pobres morrem para que ricos sobrevivam. Com essa frase curta, explicaríamos com precisão para um alienígena como funciona a sociedade que escolhemos construir. Mais do que isso ele não precisa saber. Todo o resto é consequência deste fundamento.

Foi assim que a técnica da crucificação surgiu na antiga Pérsia, 500 anos antes de Cristo. Foi levada para o ocidente por Alexandre, mas hoje se sabe também que Japão e Sudão também crucificavam pessoas. Os métodos variam de lugar a lugar. Na Arábia Saudita, decepavam a cabeça antes de crucificar o desinfeliz.

Em comum ao redor do mundo, o objetivo da crucificação: Pena de morte, o máximo da cultura punitivista, aquela que, à guisa de de manter a lei a a ordem, existe na verdade para conservar a situação política e manter classes divididas entre… pobres que morrer e ricos que sobrevivem.

A crucificação é particularmente um engenhoso e cruel método de tirar a vida de uma pessoa. O crucificado morre asfixiado porque após algum tempo naquela posição os músculos do abdômen não conseguem mais suportar o esforço de respirar.

“Eu não consigo respirar”, registrou Sêneca ao descrever as últimas palavras de um crucificado pelo Império Romano, regime famoso inclusive por crucificações coletivas, como os 6 mil rebeldes liderados pelo inesquecível escravo Espártaco.

Jair Messias Bolsonaro inaugurou, quando comemorou o suposto fracasso de uma vacina que pode salvar a vida de seus compatriotas, um novo método de crucificação coletiva. 160 mil pessoas até agora morreram no Brasil de Covid-19.  Nenhuma vida, na verdade, parece escapar da vocação de nosso Jair para prestigiar a morte. Árvores da Amazônia, onças do Pantanal, gente de todas as regiões do país que jurou servir. Tudo vem morrendo no Brasil desde que esta pessoa assumiu o cargo.

Quantas pessoas que faleceram em decorrência da Covid-19, em seus últimos momentos de vida, não pensaram antes de morrer: “Eu não consigo respirar”? Quanta gente têm morrido todos os dias, como escravos rebeldes?

Uma pandemia que inicialmente não escolhia classe, agora dizima, em sua maioria, pobres e negros.

Jesus, hoje sabemos, não era branco. E era pobre. Nada de esquemas de rachadinhas, depósitos em conta de esposa, acordos com o centrão.

O que devemos fazer diante aos impulsos genocidas do Pôncio Pilatos que hoje ocupa o mais alto cargo executivo da república? Darmos a outra face?

Esperar que ele passe? Sim, porque Bolsonaro vai passar. Não importa se amanhã, se em 2022 ou 2026 ou mais.

O “Eu não posso respirar” de George Floyd antes de morrer assassinado por alguém que muito tem de soldado do império romano, foi decisivo para que Donald Trump tivesse tido apenas um mandato nos EUA.

Mas, como o Trumpismo, o Bolsonarismo não irá passar. Porque ambos estiveram sempre aí, antes mesmo dos Persas inventarem a crucificação. “Bolsonarismo” e “Trumpismo”, com aspas, são apenas o nome para algo que, por milênios já foi conhecido por outras alcunhas. Algumas tão terríveis e de mau agouro que não dá sorte sequer escrevê-las aqui.

Outros nomes pelo qual o “Bolsonarismo” já foi conhecido, atendem, porém, por nomes chiques, ensinados em universidades de economia e hoje estampam capas de livros de auto-ajuda e de propagandas de corretoras de ações que interrompem videos no Youtube, com alguém dizendo que “este é o melhor momento para investir no mercado”.

Enquanto centenas de brasileiros morrem exclamando que não conseguem respirar.

Jesus, esse sujeito que não era branco e dizia que todos somos iguais, que temos o mesmo direito, e que a divisão da humanidade por classes era coisa do demônio, expulsou os vendilhões do templo. Foi crucificado logo depois.

Morreu sem conseguir respirar.

Não dá pra perdoar Bolsonaro e os seus. Eles sabem o que fazem.  Quem votou nele sabia o que estava fazendo. Quem votou, não era um desinfeliz decapitado por sauditas, embora tenha nas urnas agido como não tivesse a cabeça atada ao tronco.

Democracia é isso. Ao votar, você pode estar sem cabeça, inteiro, e com seu gesto ceifar vidas. Ajudar a pregar Cristo na cruz, como diz o dito popular.

Domingo, dia sagrado para cristãos, é dia de votar. Vários candidatos estarão representando o messias que crucificou uma nação.

O que seremos na solidão e no anonimato da cabine de votação? Idólatras? Vendilhões? Soldados do império romano?

Ou lavaremos as mãos?

Na dúvida, vou é com meus Orixás. Com eles, não há cruzes. Com eles, não há classes. Com eles, sou porque somos.

Sou porque somos. A mais sucinta definição de democracia, ensinada pela filosofia vinda de África muito antes de gregos inventarem a ideia.

Chamem o alienígena para explicar.

Bolsonaro é porque somos.

Porque no anonimato das urnas votamos. Escolhemos.

Ele só deixará de ser quando deixarmos também de sermos.

Há gente morrendo, há bicho ardendo, há árvores queimando.

Somos capazes de escolher querermos respirar – e não morrermos nessa cruz que o atual presidente é em nossas costas.

Somos capazes de escolher querermos respirar – e não morrermos nessa cruz.

Somos capazes de escolher querermos respirar – e não morrermos.

Somos capazes de escolher querermos respirar.

Somos capazes de escolher querermos.

Somos capazes de escolher.

Somos capazes.

Somos.

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