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Teremos que conviver com o coronavírus

Da FOLHA

Por SAMUEL PESSÔA

No cenário que se desenha, serão meses, ou anos, sem futebol com público ou shows

Já sabemos que ficaremos muitas semanas presos em casa. Essa é a estratégia correta para impedir que a evolução da epidemia não leve o sistema de saúde ao colapso. E, consequentemente, que não subam muito os óbitos por Covid-19 e por todas as outras doenças e emergências que ocorrem normalmente.

Até há pouco, a impressão que se tinha é que a epidemia passaria e em seguida teríamos vida normal.
Não vai ser assim. A epidemia passar significa uma das três possibilidades: haver uma vacina; haver um remédio que reduza muito a gravidade e o tempo de internação; ou o vírus ter se espalhado e a população ter se imunizado naturalmente. Era por essa última forma que as epidemias antigas terminavam.

Ou seja, em algumas semanas, quando o nível da infecção estiver baixo e iniciarmos medidas para normalizar nossas atividades, a vida não voltará a ser como antes. Teremos que conviver com o vírus.

Quais são as medidas? Primeiro, atacar o maior gargalo, a falta de leitos hospitalares específicos para gripes respiratórias graves, devidamente equipados e com recursos humanos adequados.

Para que haja progressão mais rápida da imunização natural, teremos que conviver com um número maior de doentes. É necessário nos prepararmos para tratá-los.

Se houver uma normalização parcial de nossas vidas, teremos que conter a epidemia. Diferentemente da estratégia de distanciamento social, que visa a supressão das atividades para impedir a progressão da epidemia, a contenção corre atrás do vírus sempre que ele aparece. Uma espécie de corrida de gato e rato.

Assim, quando alguém com os sintomas aparece, vai imediatamente para quarentena. Adicionalmente, procuram-se as pessoas que entraram em contato com o infectado, que também são enviadas imediatamente para a quarentena.

Para procurar o vírus, se adotará a prática de medição da temperatura em diversos locais, bem como deverá haver uma política de testagem em massa. Aquelas pessoas que já foram expostas ao vírus e que não transmitem podem voltar às suas atividades regulares.

Nesse cenário que se desenha, atividades que envolvam grandes aglomerações serão evitadas —muitos meses, ou até anos, sem jogos de futebol com público ou shows de rock—, assim como o controle das fronteiras e das viagens internacionais será muito maior. Em Singapura, todos que chegam do estrangeiro vão para a quarentena.

A vida no espaço público será outra. Utilizaremos sempre máscaras, principalmente para proteger os demais. A disposição das mesas nos restaurantes será alterada, e a vida doméstica será valorizada.

E, mesmo em Singapura, que tem praticado a melhor política de contenção do vírus, foi observado nos últimos dias um reaparecimento em escala maior da epidemia. O governo de Singapura avisou que, a partir da próxima terça-feira (7), adotará a supressão plena das atividades, com exceção das essenciais, por um mês.

Há notícias de que, em certas localidades na China, que caminhavam para a normalização de algumas atividades, como sessões de cinema, houve recuo.

Do ponto de vista econômico, o choque tem sido liquidamente desinflacionário. Há queda da demanda e da oferta, mas o recuo da primeira tem superado o da segunda. Tem sido assim na China.

Por aqui, aparentemente iremos adotar uma política de manutenção das rendas, e não somente dos menores salários, que será financiada pela elevação da dívida pública. Não sei como pagaremos essa conta quando a epidemia passar.

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