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COB resgata velhas práticas e tenta sabotar avanços

Paulo Wanderley

Da FOLHA

Por KATIA RUBIO

O preço da traição é alto demais e não se paga com dinheiro

Disse o historiador Eric Hobsbawm que toda tradição um dia foi inventada. Isso quer dizer que atitudes, rituais e comportamentos considerados tradicionais, na atualidade, foram um dia criados para atender a uma demanda específica.

Depois de algum tempo, passam a ser reproduzidos sem questionamento, com o argumento de que a tradição determina que aquilo seja daquele jeito. Quando isso ocorre, ninguém mais questiona por que se faz dessa maneira ou qual o motivo que levou as coisas a serem do jeito que são.

Diferentemente da regra que pode ser entendida como uma determinação legal, uma expressão da ordem e da disciplina, um princípio que serve como padrão baseado em um código moral, a tradição segue a lógica de quem a inventou. Logo, tradição não é regra, ainda que possa parecer ter a mesma força.

O esporte é uma tradição inventada, assim como são também os Jogos Olímpicos. Passado mais de um século desde a sua invenção, tudo parece ser secular. Os rituais de apresentação de equipes, as solenidades de premiação, as cerimônias de abertura e de encerramento ganharam com o tempo um caráter solene, transformando atos informais em momentos quase sagrados.

Isso talvez explique por que o esporte, e em particular os Jogos Olímpicos, tenham tanto vínculo com a sociedade e mantenham sua sacralidade profana ainda no presente século.

Mas não são apenas as cerimônias das competições que resistem às grandes transformações do breve século 20, ainda parafraseando Hobsbawm.

O comportamento e atitudes de dirigentes esportivos, de uma forma geral, também parece seguir a tendência de uma tradição. Criado para ser um grupo fechado em que só se ingressava a partir da indicação dos membros mais antigos, essa casta específica viveu durante muitas décadas ditando as normas de conduta de si mesma.

As instituições esportivas nasceram e cresceram como um sistema social à parte da sociedade. Isso determinou uma forma de conduta autocrática, lembrando que a democracia nunca foi uma palavra de ordem esportiva ou olímpica.

Na fase inicial da história esportiva e olímpica, a disputa pelas lideranças era ditada pela vaidade concedida pelo poder. Nos tempos românticos do amadorismo, ser presidente de algo era lidar com a falta de recursos que afirmava um tipo de heroísmo tão próprio do atleta. A tradição amadora levava a uma atitude desprendida que tipificava uma espécie de ideal.

O profissionalismo e a comercialização do espetáculo esportivo transformaram radicalmente essa tradição, sem que a estrutura esportiva passasse pelo mesmo processo. Ou seja, deseja-se o lucro de uma empresa, mas não se permite que ela seja gerenciada como tal. E, pouco a pouco, a tradição é traída por interesses contemporâneos que pouco ou nada se relacionam com as propostas e os valores do passado.

Gerencia-se o esporte com as modernas ferramentas do marketing e da gestão de pessoas, extrai-se dele a essência de uma atividade com pregnância mítica, desprezando, fundamentalmente, os valores humanos.

Na última semana, assistimos a mais um capítulo de uma novela dramática que envolve o COB.

Depois de anos obscuros e de um final redentor, que parecia colocar a entidade em seu devido lugar, a tradição autocrática e obscura que prevaleceu por tantos anos voltou a se abater sobre entidade olímpica. Depois de dois anos se mostrando aberto ao diálogo e à inclusão, o COB resgata velhas práticas e tenta de um golpe sabotar os avanços conquistados até aqui.

O preço da traição é alto demais e não se paga com dinheiro. A história está aí para cobrá-lo.

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