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Exportadores de pé de obra

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Uma olhada nos 46 convocados para as seleções brasileiras revela nossa miséria

Dos 46 convocados para as seleções principal e olímpica brasileiras nada menos que 31 (67%) jogam fora do país.

O que mostra no que se transformou o futebol brasileiro não é de hoje: exportador de pé de obra, vendedor de commodities.

Se não é novidade, por que voltar ao tema?

Tivesse sido apenas o time principal chamado por Tite e a rara leitora e o raro leitor não leriam linha alguma sobre o tema.

Mas 14 dos 23 convocados para a seleção olímpica também não jogam mais por aqui.

É assustador! Todos menores de 23 anos.

Um deles, o desconhecido Mauro Júnior, 20, era do Desportivo Brasil, clube fundado pela famigerada Traffic, com sede em Porto Feliz, a 117 quilômetros de São Paulo, e está emprestado pelo PSV ao Heracles, clube holandês que só quem trabalha com futebol tem obrigação de conhecer.

Se o Brasil colônia exportava pau-brasil, minério e cana-de-açúcar, para depois exportar também café, soja etc., faz tempo que tratar jogador como mercadoria virou moda.

O antropólogo Alfredo Wagner de Almeida, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, chama a atenção para a coincidência de duas recentes tragédias no Brasil, aparentemente sem nada a ver entre si: o incêndio no Ninho do Urubu, no Flamengo, e Brumadinho, em Minas.

“O fenômeno que está por trás dos dois casos é o mesmo”, explica o professor das Universidades do Maranhão e de Amazonas: “A alta procura por minérios causou a produção descontrolada da Vale e a quantidade de rejeitos acima da capacidade das barragens”.

Do mesmo modo, diz o antropólogo, “o sucesso da venda de jovens do Flamengo desenvolveu uma espécie de linha de montagem em que jovens foram empilhados em contêineres sem as condições necessárias de segurança”.

De fato, só com as vendas de Vinicius Júnior, Lucas Paquetá e Felipe Vizeu no ano passado o Flamengo faturou cerca de 267 milhões de reais.

A ganância não mede esforços em busca do enriquecimento e desrespeita ilimitadamente o ser humano.

Alguém dirá que a comparação é indevida porque na tragédia de Brumadinho houve 248 mortos, e 22 desaparecidos, contra dez mortes no Ninho do Urubu.

O paralelo do antropólogo não é com o número das vítimas, mas com o espírito que leva ao descaso pela vida das pessoas.

E hoje as promessas do futebol brasileiro não são mais as promessas do futebol brasileiro, mas apenas carne jovem com o carimbo de Made in Brazil.

Continuar assim é escolha nossa, porque nosso modelo de gestão no futebol é o mesmo do começo do século passado, coisa que não só os europeus abandonaram como também os asiáticos, os mexicanos e os chilenos, sem ter, desnecessário dizer, a mesma produção de talentos.

Está novamente na pauta nacional a ideia de transformar o futebol dos clubes associativos em sociedades anônimas, passo necessário, mas ainda insuficiente, para que, ao menos, deixemos de ver a garotada ir embora antes mesmo de pisar na relva do Maracanã.

Com o perdão do professor Wagner, exagero talvez seja apenas comparar a Vale e Brumadinho à CBF, porque o que houve no Ninho do Urubu só não aconteceu antes em outros clubes sabe-se lá por quê.

Com as exceções de praxe, os maus tratos são comuns pelo Brasil exportador afora, assim como são descuidados os gramados na maioria dos estádios.

Afinal, cuidar das pessoas, ou do meio-ambiente, é coisa de…ah, deixa pra lá.

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