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Pedagogia da destruição

Da FOLHA

Por JOSÉ BENTO FERREIRA e FABIO CESAR ALVES

O professor torna-se suspeito, o mal a ser vigiado

Nesta quarta-feira (15) professores de diferentes segmentos vão aderir a uma greve geral da educação. É, possivelmente, a mais ampla mobilização da categoria nos últimos anos, reunindo docentes que atuam desde a educação infantil ao ensino superior. A breve discussão que apresentamos aqui pretende alertar a sociedade civil para as condições de trabalho dos professores na atual conjuntura brasileira.

Nas universidades, nas escolas, em qualquer sala de aula, não existe formação possível sem uma relação empática entre pessoas. Essa experiência, concretizada naquilo que chamamos de “aula”, pressupõe diálogo e interlocução permanente, pois a aprendizagem requer reflexão e aprofundamento de saberes.

Na prática docente, conhecimento é resultado de pesquisa, delimitação de problemas, debates entre diversos pontos de vista e lugares sociais. Assim, educar não é transmitir informação: é formar cidadãos dotados de espírito crítico e autorreflexivo, é produzir e problematizar o saber, é despertar a curiosidade e o questionamento.

Essas atividades, tanto no nível básico quanto no superior, exigem condições de trabalho que muitas vezes parecem invisíveis para a sociedade. Há décadas professores enfrentam uma série de dificuldades para realizar seu trabalho com excelência.

A falta de tempo ou de apoio para a formação continuada, para a reflexão sobre o planejamento e replanejamento de seus cursos, a escassez de recursos materiais para o desenvolvimento do trabalho e, especialmente, a precarização dos salários são empecilhos graves —infelizmente, já muito familiares ao nosso cotidiano.

Nos últimos anos, medidas governamentais têm contribuído para que o trabalho do professor se torne ainda mais insalubre. Professores de escolas particulares estão desde o dia 28 de fevereiro sem a convenção que regula seus direitos trabalhistas porque os patrões se recusam a renová-la! Em tempos de “uberização” do ensino, seria o caso de se questionar que tipo de sujeito se pretende formar, oferecendo aos professores tais condições de trabalho.

A necropolítica capitaneada por Jair Bolsonaro, no entanto, pretende ir além da precarização: visa ao extermínio mesmo dos espaços de construção do conhecimento e de reflexão autônoma. A fraudulenta desmoralização de instituições reconhecidas por sua excelência em âmbito nacional e internacional combina-se com o recente estrangulamento financeiro imposto arbitrariamente a universidades, institutos e colégios públicos, com base em sofismas que, de forma perversa, comparam custos de creches com os de ensino superior.

E se combina também com a tentativa de desconstruir a figura do professor como profissional, tornado inimigo número um do governo (e de seus adeptos reais e virtuais), em uma lógica de perseguição ultraviolenta pautada por ódio e ressentimento. Uma política destrutiva e letal põe em xeque a formação de professores, sua atuação e o próprio ambiente escolar ao utilizar o espaço institucional para estimular uma “caça às bruxas” potencializada pelas redes sociais.

O ataque frontal às humanidades, nesse sentido, não é casual: além de desenvolver pesquisas voltadas para os problemas concretos da nossa sociedade, tais cursos, de custo mais baixo que os de outras áreas, têm a função de formar, justamente… professores.

Atam-se, então, as pontas de uma verdadeira e pouco sutil “pedagogia da destruição”: do ensino fundamental ao superior, o professor torna-se indesejado, suspeito, subversivo —o mal a ser vigiado e punido.

Por isso, a já antológica cena do ministro e seus chocolates não espanta apenas pela inadequação, falta de decoro ou erro de matemática (aberrações já naturalizadas nesse e nos outros ministérios). Assombra por ser, ironicamente, a metáfora viva daquilo que os atuais dirigentes do país entendem por educação: supérfluas guloseimas-mercadorias a serem ofertadas caso nos comportemos “bem”.

O grau de regressão histórico-psicanalítica dessa imagem choca todas as pessoas que levam a educação minimamente a sério. E deve, neste momento de urgência e de implosão, nos levantar a todos na luta pelo ensino de qualidade em todos os níveis, o que implica reconhecimento efetivo do trabalho docente.


José Bento Ferreira

Professor do ensino médio desde 2008, graduado em filosofia (USP), mestre em ciências sociais (PUC-SP) e doutorando em estética e história da arte (USP)

Fabio Cesar Alves

Professor de literatura brasileira da USP

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