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O futebol brasileiro resiste à ideia que modernizou gestões mundo afora

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Reacionária superestrutura do esporte nacional reage porque sabe que seu poder seria ferido de morte

Consta que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), cada vez mais empoderado, cogita apresentar novo projeto que, por meio de incentivos fiscais, estimule os clubes brasileiros de futebol a adotar o modelo de clube-empresa como é comum na Europa e até em países sul-americanos, como o Chile.

Trata-se de verdadeira novela que remonta às leis Zico, Pelé e Profut.

O Estado brasileiro, maior credor dos clubes, já quis impor a solução, admitindo a hipótese, como contrapartida, de até anistiar as dívidas aparentemente impagáveis para a maioria deles.
Nunca conseguiu devido à chamada bancada da bola, hoje mais fraca que ontem, embora não se deva subestimá-la.

A reacionária superestrutura do esporte nacional reage porque sabe que seu poder seria ferido de morte.
No governo Dilma Rousseff o Profut foi quem mais se aproximou do passo modernizante, sabotado pelo então ministro da Fazenda Joaquim Levy, incapaz de entender que a renúncia fiscal proposta redundaria, adiante, em óbvios ganhos pelos resultados obtidos com a mudança.

Claro que a introdução do clube-empresa traz problemas imediatos aos acostumados a tratar o esporte como terra de ninguém, sempre socorridos pelo paternalismo dos cofres da viúva, razão pela qual é necessária uma cenoura inicial para seduzir os recalcitrantes.

Temos a vantagem de poder implantar um modelo de gestão que não repita os erros cometidos em outros países, com as garantias adequadas à nossa cultura futebolística, impedindo, por exemplo, a chegada de aventureiros.

A empreitada de Maia não será fácil, nem pode correr o risco de ser mais uma.

A intenção não deve se limitar a diminuir o poder da CBF ou apenas facilitar o surgimento imprescindível da Liga dos clubes.

Precisará atacar o arcaísmo dos cartolas dos clubes, em última análise os maiores responsáveis pela situação de penúria das agremiações, incapazes de, entre outros pecados, separar futebol da área social.
Resistir à modernidade não é exclusividade nossa.

Quando era presidente do Boca Juniors, Mauricio Macri levou proposta semelhante ao poderoso Julio Grondona, que fingiu acolhê-la com simpatia.

Macri trouxe uma consultoria francesa para fazer detalhada exposição aos clubes argentinos de primeira e segunda divisões, no auditório da Associação de Futebol da Argentina, que Grondona presidia.

Ao cabo da apresentação, Grondona levantou-se, aplaudiu com pretenso entusiasmo e, incontinenti, propôs que se votasse a aprovação da ideia (que ele havia destruído nos bastidores).

Macri levantou a mão em sinal de concordância e Grondona o seguiu, para, em seguida, perguntar quem era contra.

Todos os demais clubes reprovaram a proposta…

Brilhante canastrão, Grondona abandonou sua poltrona, dirigiu-se até Macri, pôs a mão esquerda em sua nuca, aproximou a cabeça do atual presidente argentino do seu peito, e sussurrou: “Perdimos, Macri, perdimos”.

Grondona morreu em julho de 2014, antes de ser pego pelo Fifagate.

O futebol argentino, como o brasileiro, vai morrendo aos poucos.

A resistência aqui não tem a picardia do velho mafioso, mas tem sido igualmente bem-sucedida na manutenção do atraso.

Caso Maia se dê bem, fará um gol à altura dos célebres Heleno de Freitas, Mané Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo, Paulo Valentim, Jairzinho, Paulo César Caju, Roberto e, vá lá, Túlio, botafoguenses como ele.

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