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Caso Cleo: homossexualidade no futebol

De AVENTURAS NA HISTÓRIA

Por JOSÉ RENATO SATIRO SANTIAGO

Afirmações sinceras marcaram momentos da carreira do jogador e o fizeram adiantar o casamento

Nascido em 1959 na cidade gaúcha de Venâncio Aires, Cleo Inácio Hickmann começou no futebol nos juvenis do Internacional de Porto Alegre em 1976. Meio-campista habilidoso, logo ganhou destaque por seu bom futebol bem como pela semelhança física com um grande astro colorado, do qual era contemporâneo, Falcão. Em 1979, com 20 anos, foi convocado pelo técnico Mario Travaglini para atuar como titular na seleção brasileira, que disputou e acabou por conquistar a Medalha de Ouro nos Jogos Panamericanos de Porto Rico naquele ano. Já tendo como técnico Jaime Valente, Cleo fez parte do selecionado que no começo de 1980 participou do torneio pré-olímpico da Colômbia. A derrota por 3 a 0 para a seleção peruana, logo na segunda rodada da competição, acabou por fazer com que perdesse a titularidade. Com uma equipe instável e uma campanha pífia, a seleção acabou em uma ridícula quinta colocação no torneio que classificou Argentina e Colômbia para os Jogos Olímpicos de Moscou, que aconteceriam em julho e agosto daquele ano. Cleo jamais voltou a vestir a camisa canarinha.

De volta à equipe colorada que, após a saída de Falcão para a Roma, em 1980, se tornara a referência em campo, suas boas atuações fizeram dele o melhor jogador do Campeonato Gaúcho de 1981, conquistado por sua equipe, após um emocionante empate por 1 a 1 diante do grande rival, o Grêmio, atual campeão brasileiro em partida realizada no dia 29 de novembro. Seu futebol vistoso chamou a atenção do Barcelona, que não tardou a contratá-lo a pedido do então técnico da equipe, o alemão Udo Lattek, logo no começo da temporada de 1982, com a intenção de substituir o cracaço Shuster, que sofrera uma grave contusão no final do ano anterior. Cabe ressaltar que o primeiro nome sugerido para ser contratado teria sido o de Toninho Cerezo, atleta do Atlético Mineiro, mas que, no entanto, não contava com a simpatia de Lattek. Filho de pais alemães, a chegada de Cleo gerou pouco entusiasmo na imprensa local, que se limitou a destacar sua aplicação tática durante os treinamentos, e menos ainda junto aos seus companheiros, que não entendiam como aquele “desconhecido” teria sido contratado para substituir justamente o maior nome do elenco. Contudo, em entrevista a um periódico catalão, Cleo mostrou personalidade ao afirmar que não prometia gols e que não substituiria Shuster, mas que, depois de mostrar suas qualidades, o técnico Lattek iria certamente recomendar sua contratação por um período de três anos.

O fato é que o futebol de Cleo não gerou grandes suspiros do técnico, tampouco de seus companheiros. Isso piorou quando chegaram do Brasil notícias sobre certa entrevista dada pelo meio-campista momentos antes de sua ida à Espanha. A edição 612 da revista Placar, publicada em 12 de abril de 1982, apresentou uma reportagem referente à entrevista dada por Cleo ao colunista social Roberto Gigante para a edição número 2 do jornal Imagem News. Nela Cleo fez revelações sobre um tema que, desde sempre, é barreira no futebol, a homossexualidade. Segundo Gigante, Cleo afirmou “ter vivido experiências com homens na adolescência, entre outras coisas, embora tais fatos não se manifestem nas concentrações”.

Além da entrevista, Cleo também posou nu para a publicação, tendo as partes íntimas protegidas por uma estátua estrategicamente posicionada à sua frente. O barulho em torno da entrevista foi enorme. Ao ser convidado pela revista Playboy, o meio-campista recusou, afirmando: “Quero que essa história de homossexualismo caia logo no esquecimento”.

Reprodução

A notícia chegou à Espanha, recém-saída do regime ditatorial de Franco, como uma bomba. A assessoria de imprensa do Barcelona logo se antecipou para negar toda a história. O então capitão da equipe, Antonio Olmo, quando questionado sobre eventuais provocações que seus companheiros passariam a sofrer dos rivais, afirmou: “Se nosso maior rival nos atacar com essa questão, vamos publicar a lista de jogadores homossexuais que passaram por lá ao longo de toda a sua história”. O uso da expressão “maior rival” deixou claro sobre a qual equipe ele estava se referindo (o Real Madrid). Quanto à diretoria do clube catalão, “solicitou” a Cleo que antecipasse seu casamento com sua namorada, Maria José Costa Silva, o que aconteceu em uma cerimônia na Espanha que não contou com a presença de nenhum atleta ou membro da comissão técnica do clube. Ao que parecia, estava superada a polêmica sobre a homossexualidade. Ainda que casado, Cleo jamais encontrou lugar na equipe catalã, onde atuou por apenas 45 minutos durante um amistoso diante da modesta equipe do Hospitalet. Após três meses, estava de volta ao Brasil, mais especificamente no Beira Rio, a tempo de ser bicampeão gaúcho com a equipe colorada em 1982. No ano seguinte, acabou cedido para atuar no Palmeiras, em 1983, por indicação do técnico Rubens Minelli, com quem trabalhara no Internacional nos finais dos anos 1970.

Por conta de suas madeixas loiras, Cleo foi maliciosamente apelidado de Farrah Fawcett,alusão a uma das atrizes que compunham o elenco do famoso seriado As Panteras. Também teve vida curta no alviverde e naquele mesmo ano foi emprestado ao Flamengo, trocado pelo atacante Baltazar. Ainda atuou pelo América do Rio de Janeiro, em 1985, Sport Recife, entre os anos de 1986 e 1988, até que encerrou a carreira precocemente aos 30 anos no Vila Nova de Goiás, devido a uma séria lesão no joelho. Não é certo afirmar o quanto suas declarações sobre seus supostos relacionamentos homossexuais chegaram a influenciar sua carreira; no entanto, relatos de jogadores que atuaram com ele garantem que muitos de seus adversários não deixavam por menos em dar entradas desleais durante jogos e, até mesmo, treinos, como forma de mostrar que “ele não fazia parte daquele meio”.

Cleo ainda seguiu no futebol durante algum tempo, treinando equipes juniores, mas logo se afastou definitivamente dos gramados. Casado, pai de família e primo da ex-modelo e apresentadora Ana Hickmann, tem atuado como empresário de alguns atletas. O caso de Cleo, embora já tenha ocorrido já faz mais de 40 anos, ainda reacende o tabu sobre esse tema que parece insistir em manter-se escondido nos armários dos diversos vestiários nos estádios do Brasil afora.

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