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Neste carnaval eu vou sair de Bolsonaro

De O GLOBO

Por JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

A fake news faz parte do pacote da previdência momesca e, como o confete para a colombina e o rabo para o diabo, acompanha a fantasia

Será uma fantasia enfeitada de disparates, variando de opinião e desenho a cada dia de carnaval. Nada harmonizará com nada. Este ano, está combinado, eu vou sair de Bolsonaro.

Os adereços de mão não conversarão com os penachos da cabeça, as cores não farão qualquer sentido e no máximo se deixarão escolher pela loucura inerente aos ventos ateus da folia. Talvez de manhã um gorila azul bebê; quem sabe de tarde um sarongue rosa choque. A coerência cromática será a instaurada pela bancada do prazer. Em sendo a noite uma criança malvada, um Bolsonaro de raiz poderá aparecer de verde oliva. Tudo será possível e ok. Deus, extenuado, não estará acima de todos. Vai tirar uma semana em Arraial.

A mensagem aos quartéis da orgia estará num papelão em forma de whatsapp, o estandarte da fantasia. O de hoje à noite, no Baile do Caju Amigo, já dará o recado curto e grosso das intenções do Bolsonaro de araque: “Não me importa que o Bebiano manque, eu quero é rosetar”. A fantasia será um saiote de laranjas de plástico. Na cabeça, a careca do Queiroz (pra quê cabelo se a coisa agora está pra nós?).

Eu ia sair de diabo, já tinha até o manto de veludo, mas me faltava o rabo. Ia botar um anúncio no jornal, como se fosse aquela marchinha antiga, “preciso de um rabo pra brincar o carnaval”. Achei que seria provocação desnecessária para com o Ministério da Família. Eu vou sair é de Bolsonaro, simples assim. Como se fosse um café da manhã com requeijão, um soco na mesa, uma nostalgia infantil do medo do palhaço bate-bola.

Uma fantasia de Bolsonaro deve atirar para todos os lados, ter lantejoulas de dedinhos digitais como se imitassem um fuzil (um Bolsonaro de verdade fala pelos dedos). As lantejoulas poderão estar costuradas numa camiseta pirata do Palmeiras, numa faixa como as do Witzel, ou qualquer outro contra-senso ao dispor. O importante é que, da sandália para a reunião ministerial à bolsa de colostomia, nada faça nexo ou tenha pertinência.

Eu pensei também em sair como se fosse outra marchinha, fantasiado de Buda, e ficar como pedia a letra, de Buda pra cá, de Buda pra lá. Achei, no entanto, que no carnaval isto já está subentendido. Decidi sair de Bolsonaro, o “mito” fabricado na Turuna da Senhor dos Passos. Durão, mas nem tanto. Vou convocar a todos no grito de guerra da concentração —“olha o Bolsonaro aí, gente!” — para o desgoverno da razão. O uso do caixa dois estará liberado a quem se quiser deixar liberar desse jeito. Relaxa. Toda delação ao bicho solto e ao descontrole das verbas púbicas será arquivada no STF, o Supremo Tribunal da Folia.

Eu vou sair de Bolsonaro porque a ele será permitido despejar — na orelha glabra da mulata bossa nova, no tímpano cabeludo do pirata da perna de pau — a última fake news que chegou de Brasília. Orelhas de carnaval foram feitas para isso. Adoram mentiras cheias de más intenções. Meu bem, vamos fazer uma corrupção? Se o paquerado não ouvir, use mais uma vez os dedinhos e se comunique em libras. Bora pruma corrupção lá em casa?

A fake news faz parte do pacote da previdência momesca e, assim como o saquinho de confete para a colombina e o rabo para o diabo, acompanha a fantasia Bolsonaro. Mentira sincera interessa. Deve ser praticada com a elegância possível dentro do estilo pé-na-porta do personagem. Meu bem, você tem um foro privilegiado!

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