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O fogo interrompe o sonho dos meninos que queriam ser heróis

Da FOLHA

Por KATIA RUBIO

Quem já entrou em alojamento e conviveu com esses garotos sabe que ali a vida pulsa

Sonho é aquela energia inconsciente que mobiliza os seres humanos a perseverar em sua jornada. Ele pode ter a forma concreta de imagens dinâmicas durante o sono, mas pode ser também a nomeação dos desejos perseguidos ao longo da existência.

Vida de atleta é assim. Tudo começa com um sonho mobilizado pela performance de um atleta mais velho, capaz de realizar um gesto perfeito ou surpreendente, ou então com o sonho de ganhar o mundo, mundo esse redondo, cheio de possibilidades e de horizontes. Sonhos que se postam logo ali à frente como as utopias, mobilizando novos esforços, deslocando os sonhadores todos os dias em busca de desejos.

O esporte tem esse poder de fazer sonhar, de perpetuar a memória daqueles que persistiram, venceram não apenas competições, mas todas as agruras de uma vida de muito esforço e trabalho. Isso mesmo. O glamour que cerca o atleta, sintetizado em poucos minutos de uma competição vitoriosa, esconde os muitos anos de busca, e os tantos nãos que fazem um sim.

Por isso identifico o atleta com a figura mítica do herói. Sua vida é uma jornada que começa no momento em que a habilidade da criança é identificada como fora da média. E aquilo que o senso comum chama de dom é também uma sina que exigirá esforço para que a profecia do sucesso se realize. Em um país onde as condições materiais para o desenvolvimento de carreira são precárias resta ao habilidoso percorrer o caminho de peregrino em busca da materialização de seu desejo, de sonho.

A carreira de muitos começa com o necessário deslocamento de seu local de origem para um destino desconhecido. Ouvi de centenas de atletas o que representou abandonar a cidade de origem e a família para tentar ser alguém no esporte. Saudade é a palavra recorrente nesse processo, que ainda conta com a solidão, a tristeza e o desespero pelo enfrentamento do desconhecido, dos desmandos, dos abusos e da falta de respeito. Alguns não resistem e abandonam essa busca e passam a conviver com a incerteza do se.

Se eu tivesse tentando, se eu tivesse mudado, se eu tivesse enfrentado, mas a resposta afirmativa será sempre uma possibilidade e nunca a certeza. Outros partem em busca de um lugar onde haja condições mínimas de vida digna: uma cama limpa, alimentação adequada, relações humanas saudáveis. Embora isso não seja muito, em muitos casos é quase um luxo.

É também nessas andanças que vão se estabelecendo vínculos, o que torna a jornada menos árdua e os momentos de mudança e afastamento tão difíceis. O atleta é, por força do ofício, um nômade. Cada clube é um ponto de chegada e de partida. Essa talvez seja uma das razões para que grupos de atletas refiram-se a si mesmos como família. Pertencimento é uma necessidade básica de todos os seres humanos, ainda mais quando esses seres são pouco mais que crianças grandes, que sonham.

Quem já entrou em um alojamento ou refeitório com um grupo deles entende o que é isso. Ali a vida pulsa. O desejo se resume à expectativa do momento da estreia, da conquista da posição de titular ou da convocação para a seleção. E assim se passam os meses, os anos, e a precariedade do presente é enganada pela inevitabilidade de um futuro incerto, contudo sonhado. Não há perspectiva de fim nesse projeto porque a finitude implica na dor do real.

Em tempos de água e lama foi o fogo que apagou, em pleno sono, o sonho de meninos que desejaram ser ídolos ou heróis. Como canta o poeta vivendo num país sedento, um momento de embriaguez, nós somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.

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