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As vantagens de ser alienado

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Gostaria de passar reto pelas notícias de política e ir direito às sessões de cultura, saúde e astrologia

Um amigo não faz a menor ideia do nome do atual presidente do Senado. Sabe o de um ou outro ministro do STF. “Esse Gilmar, hein?”, ele arrisca de vez em quando. Ficou sabendo que tem filho do presidente acusado de corrupção, mas não faz ideia do tamanho da treta. Nos últimos anos, nenhum fio de cabelo branco a mais, nenhuma ruga na testa, nem dores na lombar ou gastrites nervosas.

Quando estamos juntos, jamais falamos de política, porque ele corta o assunto. É um alienado assumido. Dorme bem, come sem pressa, está sempre bem-disposto e bem-humorado. Passou a escrever com frequência num tal livro da gratidão. Isso mesmo. Ele registra agradecimentos pela vida, pelos amigos, pelos dias bons, pelas pessoas que encontra no caminho, pela chuva, pelo sol. Quando me contou, achei que era maconha estragada. Agora já quero saber onde compra.

Você deve pensar, nossa, deve ser um daqueles chatos-perfeitinhos. Longe disso. Não faz ioga, não está preocupado com o acúmulo de plástico nos oceanos, acha que aviões, hotéis e restaurantes deveriam ter área “kids free”, porque acha um porre a presença das mesmas. Mas, que coisa, o que muitos de nós certamente apontariam como algo execrável, ainda mais nos dias de hoje, passou a ser objeto de minha admiração e meta de vida. Quero ser alienada, pelo menos um pouquinho.

Gostaria de passar reto pelas notícias de política e ir direito às sessões de cultura, estilos de vida, saúde, comportamento e astrologia, tema super pop entre os mais jovens, o que ainda não entendi por que, mas quero muito descobrir. Quando vejo, o dia acabou e apenas cliquei em links que tratam da reforma da Previdência, do pacote anticrime do Morobaixarias no Congresso, projeto para testar político doidão e transformar a Bíblia em patrimônio. Oh, Deus.

Meu amigo lê, medita, ouve música enquanto cozinha, podcasts, enquanto pedala. Eu almoço com a GloboNews, ando de bicicleta com a CBN, quando abro o navegador no computador, meu default é a Folha. Ando tão alienada de coisas altamente alienáveis que só soube da última gravidez da princesa Kate quando ela já estava para parir. Qual a importância disso? Nenhuma.

É disso que sinto falta, de ler coisas que não têm nenhuma importância. De ver programas na TV que não signifiquem nada, a não ser diversão. Queria emburrecer só um pouquinho, conseguir tirar dos ombros a “obrigação” de saber tudo o que acontece no país, de me preocupar com o que será da gente.

Uma pilha de livros se acumulou na minha mesa de cabeceira e eu me sinto culpada só de pensar em ler algo que não seja informação relevante para os dias loucos em que vivemos hoje. Mas, então, dou de cara com um livro que recebi em casa: A Mágica Transformadora do F*. Assim mesmo com esse asterisco. O livro promete ensinar “como parar de perder o tempo que você não tem com gente que você não gosta, fazendo coisas que você não quer”.

Não é uma loucura que a gente precise ler um livro para aprender a ligar o f*da-se de vez em quando? Os benefícios, por mais óbvios, fizeram meus olhos brilhar. Segundo o resumo, a gente ganha sono, sexo, férias sem email, conhecimento quase enciclopédico de memes de gatos, noites de sexta-feira no sofá (sem a TV Senado sintonizada), confiança, um bronzeado, tempo, alegria e liberdade para terminar um maldito livro de vez em quando. Isso, sim, é uma Bíblia.

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