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Há meses os ventos de Brasília anunciam a morte do esporte brasileiro

Da FOLHA

Por KATIA RUBIO

Na nova política de governo, espera-se que atletas nasçam e floresçam espontaneamente

Na obra “Crônica de Uma Morte Anunciada”, de Gabriel García Márquez, todo um vilarejo sabe que uma morte irá acontecer. Sabe-se inclusive quem é o algoz e quem será a vítima. Mas, todos esperam que algo ou alguém se mobilize. E o tempo passa. E todos assistem o desenrolar da trama, que acaba na morte anunciada. Fato é que, acostumados que estamos a tramas hollywoodianas, não podemos aceitar um final como de Björk, em “Dançando no Escuro”. Pode mesmo a mocinha morrer no final sendo inocente?

E mais uma vez, vemos a vida imitando a arte.

Não é só no cinema que alguém que só faz o bem é iludida com promessas vãs. E mais do que ser iludida, ela passa a defender ideias e posturas que depois se voltam contra si mesma. E, inocentemente, busca compreender onde foi que errou. Custa a acreditar no erro de avaliação que levou àquela defesa. Que lamento.

Há meses os ventos que vêm de Brasília anunciam a morte do esporte brasileiro. Primeiro acabaram com o ministério e reduziram o espaço do esporte a uma salinha no fim do corredor do Ministério da Cidadania e Ação Social. Não que esporte e cidadania não sejam fundamentais ao povo brasileiro, mas reduzi-lo a isso é o mesmo que fazer o Titanic caber em um caiaque.

Mas, as aberrações não param aí. Durante a década dos megaeventos, atletas, federações e empresários se locupletaram da estrutura montada para o esporte brasileiro decolar e conquistar visibilidade e resultados em competições. Cada medalha, cada título era celebrado como fruto dessa estratégia.

As bolsas e incentivos chegavam como chuva, uma dádiva da natureza, que abundaram e favoreceram atletas de diferentes níveis e modalidades. Muitos organizaram a carreira esportiva com um dinheiro que parecia nunca acabar. E a vida seguia como se esses recursos fossem eternos.

Houve problemas, sim, muitos. Contas mal prestadas, dinheiro desviado, licitações fraudadas, mas o Pan, a Copa, os Jogos Militares e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos aconteceram. E os envolvidos gostaram. Aplaudiram e foram aplaudidos. E os problemas, que eram evidentes, não foram devidamente diagnosticados e corrigidos. Restaram críticas que serviram de justificativa para acabar com um projeto de futuro. Ou seja, jogaram a água do banho junto com a criança.

No último dia útil do ano, do mandato de um presidente que foi eleito como vice, que publica as medidas que estão por vir, é anunciado que o recurso que sustentou grande parte dos atletas brasileiros em formação, e também olímpicos consagrados, será cortado. Como na crônica de uma morte anunciada, quando o pistoleiro passeava pela praça com a arma em punho, no orçamento desse ano previa-se uma redução de 137 milhões de reais para 82 milhões. Ainda assim não se podia acreditar que o gatilho seria disparado. Em comparação com 2016, 58% dos atletas não receberão qualquer benefício. Atletas das categorias estudantil e de base sumiram da prioridade do governo.

Temos então a nova política de governo. Espera-se que gerações de atletas nasçam e floresçam espontaneamente gerando os atletas de nível olímpico, internacional e nacional, que estarão aptos a receber os parcos recursos que sobraram.

E como nos filmes de velho oeste, quando ainda havia algum charme na cena do roubo e o ladrão anunciava “a bolsa ou a vida”, será preciso entender como os atletas viverão para o esporte sem as condições materiais para isso. E agora, no Ministério da Cidadania, quem fica sem recurso são justamente as categorias de base. É a apologia do amadorismo.

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