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Análise: Trump e Putin unidos contra os Estados Unidos

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Do THE NEW YORK TIMES

Por THOMAS FRIEDMAN

Desde o início de seu governo, o presidente Donald Trump tem respondido, a cada nova evidência apresentada pela  CIA, FBI e NSA de que a Rússia interferiu na última eleição, com acusações a Barack Obama ou aos democratas de terem relaxado muito – nunca culpando o presidente Vladimir Putin ou a Rússia por seu ataque cibernético sem precedentes contra o processo democrático americano.

Tal comportamento por parte de um presidente americano é tão impróprio, tão contrário aos interesses e valores americanos que leva a uma conclusão: ou Trump é um agente da espionagem russa ou realmente gosta de passar por um quando aparece na TV.

Tudo que aconteceu na segunda-feira em Helsinque reforça essa conclusão. Meus caros americanos: vivemos um momento único da história dos Estados Unidos. Estamos numa enrascada e precisamos tomar algumas grandes decisões.

Existem provas esmagadoras de que o presidente, pela primeira vez na história do país, está, deliberadamente ou por culpa de sua personalidade distorcida, comportando-se como um traidor – comportamento que fere seu juramento feito ao assumir o cargo de “preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos”.

Trump quebrou esse juramento na segunda-feira e os republicanos não podem mais fugir desse fato ou fingir que ele não aconteceu. Todo parlamentar republicano que disputar uma eleição vai ser – e deve ser – questionado: você está com Trump e Putin ou está com a CIA, o FBI e a NSA?

Tudo começou com o chocante tuíte divulgado por Trump antes de se sentar com Putin na manhã de segunda: “Nossas relações com a Rússia NUNCA estiveram tão ruins, graças a muitos anos de loucura e estupidez dos EUA e, agora, a uma manipulada caça às bruxas”.

Em sua conta oficial no Twitter, o Ministério das Relações Exteriores russo (que identifica um idiota útil quando vê um) deu imediatamente um “like” ao tuíte de Trump, acrescentando: “Nós concordamos”. Aposto que concordam mesmo.

A coisa piorou quando, na entrevista coletiva de imprensa com Putin, perguntaram explicitamente a Trump se ele acreditava na conclusão de suas agências de informação de que a Rússia havia hackeado as eleições americanas. O presidente dos EUA então jogou debaixo de um ônibus andando todo nosso aparato de inteligência, ao mesmo tempo em que levantava suspeitas sobre o servidor de Hillary Clinton para disfarçar o que estava fazendo.

Quanto a quem hackeou a eleição, Trump disse: “Não vejo razão para ter sido a Rússia”. E, num rasgo de chocante equivalência moral, uniu Estados Unidos e Rússia ao afirmar que “todos temos culpa … ambos cometemos erros”.

Trump disse ainda que a investigação americana sobre o hackeamento russo foi a responsável por “separar” os dois países.

Ver um presidente americano desmentir suas próprias agências de informação, culpar os dois lados pela interferência russa na eleição americana e confundir deliberadamente o fato de não existirem haver provas sólidas de conluio entre sua campanha e a Rússia com o fato de que a Rússia tinha interesse em derrotar a candidatura anti-Putin de Hillary Clinton – me dá náuseas. Endosso totalmente o tuíte que o ex-diretor da CIA John O. Brennan divulgou após a entrevista:

“A atuação de Donald Trump na coletiva de Helsinque excede o limite do crime e do delito grave, nada devendo à traição. Não apenas seus comentários foram imbecis como ele se pôs inteiramente nas mãos de Putin. Patriotas republicanos: onde estão vocês???.”

Trump está simples e insanamente obcecado com o que ocorreu na última eleição. Agora, porém, ele é presidente, e o fato de não haver provas de conluio com os russos não significa que não tenha, como presidente, a responsabilidade de assegurar que eles sejam punidos por interferir por conta própria na eleição e sejam efetivamente impedidos de repetir isso no futuro. Faz parte de seu contrato de emprego!

O que Trump disse equivale a Franklin Roosevelt ter dito após Pearl Harbor: “A culpa é dos dois lados. Nossos navios no Havaí meio que provocaram o Japão. E a propósito: não tive nada a ver com o ataque. Portanto, baixem a bola”.

Eis a única mensagem que Trump deveria ter enviado a Putin nesse encontro:

“Você atacou nossa democracia e dois pilares da economia e da segurança global que vêm mantendo a paz e promovendo a prosperidade desde a 2ª Guerra: a União Europeia e a Otan. Não queremos mais ouvir suas negativas dadas com cara de jogador de pôquer. A partir de agora, consideraremos atitudes do gênero como atos de guerra e não apenas vamos sancioná-lo como você nunca viu antes – você também vai provar o gosto de cada arma cibernética de nosso arsenal. Alguns de seus segredos pessoais mais íntimos vão aparecer na capa de cada jornal do mundo. Entendeu ou quer que desenhe?”

“Assim, você estará sob observação de agora até nossas eleições de meio de mandato (estou certo de que você sabe a data). Se se comportar bem, voltaremos a falar em dezembro sobre o que você quiser – Ucrânia, Síria, Crimeia, controle de armas. Até lá, nossa CIA e nossa NSA estarão na sua cola e na dos seus arapongas cibernéticos. E, Vlad, como você deve ter percebido pelo indiciamento de 12 de seus agentes por meu Departamento de Justiça, você não é tão bom quanto se acha.”

Isso é o que um verdadeiro presidente americano que jurou proteger e defender a Constituição teria dito a Putin.

Ele então entenderia que esse encontro tinha apenas um item na agenda – e não era “desenvolver um relacionamento extraordinário”. Era d-i-s-s-u-a-s-ã-o: dissuadir a Rússia de ser cada vez mais e incansavelmente desestabilizadora.

Nos últimos anos, que fez Putin para ser bajulado por um presidente americano atrás de um relacionamento “extraordinário”? Ele ocupou a Crimeia, invadiu a Ucrânia, forneceu os mísseis que derrubaram um avião civil da Malásia sobre a Ucrânia, expulsou com bombardeios dezenas de milhares de pessoas da Síria para a Europa, desestabilizando a Europa, viu-se envolvido na morte de uma britânica que manipulou acidentalmente um agente neurotóxico desenvolvido para matar ex-agentes russos na Inglaterra e promoveu uma campanha de desinformação para incentivar o voto pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, com o objetivo de fragmentar a UE.

Mas, acima de tudo, Putin desfechou um ataque cibernético contra o processo eleitoral dos Estados Unidos, visando tanto a eleger Trump – com ou sem conluio com este – quanto a semear divisões entre americanos.

As agências americanas de informação não têm dúvidas sobre isso. Na semana passada, o diretor de Inteligência Nacional, Dan Coats, descreveu a investida cibernética de Putin como destinada a “explorar a abertura dos EUA visando a sabotar nossa vantagem competitiva no longo prazo”. Coats acrescentou que a infraestrutura digital dos Estados Unidos está “literalmente sob ataque”, acrescentando não haver dúvidas de que a Rússia é “o ator estrangeiro mais agressivo”.

Não sou dado a teorias da conspiração, mas não consigo deixar de pensar que a primeira coisa que Trump disse a Putin no encontro privado dos dois em Helsinque, antes de seus assessores terem permissão para entrar, tenha sido algo como: “Vladimir, você e eu continuamos numa boa, certo?”.

Ao que Putin teria respondido: “Donald, você não tem nada com que se preocupar. Basta continuar sendo você mesmo para continuarmos numa boa”.

(tradução: Roberto Muniz, do Estadão)

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