Clássico com torcida única significa o fim do futebol no Rio

Vereadores instituem "Dia em Memória ao Futebol"

Da FOLHA

Por ÁLVARO COSTA E SILVA

O dia 10 de dezembro de 1967 se tornaria inesquecível para o menino. Foi quando ele conheceu o Maracanã. Não lembra se entrou pelo Bellini ou pela Uerj, mas recorda o frio na barriga. E o impacto da visão multicolorida: o verde do gramado contrastando com o azul das cadeiras; as bandeiras do Botafogo e do Fluminense (estas, envoltas em nuvens de pó-de-arroz).

Depois veio o som do alarido e da batucada, e o gosto do cachorro-quente Geneal, o melhor que já comeu. Pai e filho estavam no meio da arquibancada, o espaço das famílias, com torcida mista e sem brigas. O melhor lugar para assistir ao jogo, quando o sol do verão baixava. Com 88.571 pessoas no estádio, o menino virou para o pai e disse, apontando para o lado do Botafogo: “É aquele”. O pai tricolor não gostou. Mas deixou passar.

A escalação do time, ele até hoje sabe de cor: Manga, Paulistinha, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César Lima. Os gols, revê sempre no filme do Canal 100: Samarone, o Diabo Louro —o primeiro gol que viu na vida!— e Roberto Miranda. 1 a 1. Pai e filho voltaram felizes para casa.

Estive no Maracanã zilhões de outras vezes, como repórter e sobretudo como torcedor. Pois, na semana passada, a Justiça do Rio acatou o pedido do Ministério Público de instaurar a torcida única nos clássicos. Uma briga entre facções organizadas do Botafogo e do Flamengo, que teve transmissão ao vivo e terminou com a morte de um botafoguense na ponta de um espeto de churrasco, motivou a decisão. Triste futebol carioca.

Já não tínhamos estádio (jamais esqueça que o ex-governador Sérgio Cabral destruiu o Maracanã). Agora não temos torcida adversária. Num futuro próximo, perguntaremos como a grã-fina das narinas de cadáver: “Quem é a bola?”.

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