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José Teixeira, o Professor (1935-2018)

Por JOSÉ RENATO SATIRO SANTIAGO

Multicampeão, certamente esta palavra resume o que José Teixeira é. Para pessoas como ele, usar o verbo no passado é mais que um equívoco, uma comprovação de desconhecimento dessa alma tão doce.

Ainda criança costumeiramente ouvia meu tio Fernando Sátiro, atleta do São Paulo nos anos 1960, falar sobre ele. Me causava surpresa, o tratamento antes de seu nome: Professor. Um descrição que moldava como uma luva para ele.

Incansável estudioso, o conheci por conta de uma palestra que ministrei. Quando o reconheci, fiquei tão surpreso que não me furtei a perguntá-lo: “O senhor por aqui?” Com uma voz mansa, ele respondeu: “…conhecimento nunca é demais. Quando eu parar de aprender, nada mais serei.” Ao final, ele veio até a mim me parabenizou e agendamos um café. Desde então, foram dezenas deles no Shopping Paulista em São Paulo.

Embora tenha começado a atuar profissionalmente no São Paulo, se destacou com maior intensidade no Corinthians. Costumava falar: “…no São Paulo, me ensinaram a ser profissional, que deveria separar a emoção da razão e por conta disso, não deveria torcer. Já no Corinthians…”. Inegável, o alvinegro Professor Teixeira foi marcante para equipe de Parque São Jorge, sendo um dos maiores técnicos de sua história.

Conversar com ele eram verdadeiras aulas. Ao longo delas, ele construía junto ao seu interlocutor uma linha de raciocínio. Impossível bater papo com ele sem estar atento.

Auxiliar de Osvaldo Brandão durante anos, nutria uma amizade única por ele, a ponto de ter colocado na sua filha, Marcia, o mesmo que do filho Brandão, Marcio que morrera de câncer. Os outros filhos são Junior e Eduardo. Sobre seu longo casamento com Dona Cleide, costumava falar que devia tudo a ela, pois enquanto ele trabalhava, ela “fazia as coisas acontecerem”.

Sua humildade era algo extraordinário, algo que jamais vi em qualquer outro personagem de futebol. Ouvir suas histórias de bastidor, um presente.

Foi dele que ouvi a afirmação que em 1979, quando era técnico do Corinthians, o presidente da Federação Paulista de Futebol, Nabi Abi Chedid procurou o presidente do clube, Vicente Matheus para falar: “Não podemos deixar o Palmeiras ser campeão”. A equipe alviverde, comandada por Telê Santana, liderava a competição e era considerada a virtual campeã. Da conversa entre os dois dirigentes surgiu a ideia de criarem uma situação que acabou por provocar a interrupção da competição por meses. Ao passar para o ano seguinte, alguns contratos de jogadores palmeirenses acabaram por se encerrar. Enfraquecido, acabou perdendo o ritmo e o título que foi parar no Parque São Jorge, já sob o comando de Jorge Vieira.

Sempre propositivo, era difícil ouvir lamentações e confesso lembrar apenas de uma reservada a revista Placar, na época comandada pelo jornalista Juca Kfouri. Segundo ele, o então editor da maior publicação futebolística do país, fez uma forte campanha junto a imprensa em geral pedindo sua saída do clube. Chegou a destacar uma capa da revista onde o desenho de um dedo arremessando Teixeira, com o dizer: “Fora Teixeira”. Segundo ele, faltou respeito ao profissional e isto ele nunca admitiu.

Ativo, a última vez que me encontrei com ele, foi juntamente com o presidente do Iranduba, equipe de futebol feminino do Amazonas, Amarildo, às vesperas da semifinal do campeonato brasileiro do ano passado. Por conta do jogo ser contra o Santos, equipe que já treinara, falou que não se sentiria bem indo ver a partida ao vivo. Por isso propôs analisar toda a partida e compartilhar sua análise posteriormente. Quando o dirigente amazonense perguntou quanto precisaria pagar por isso, Teixeira devolveu: “Você me chama para um bom bate papo e já está pago.”

Isto é Professor José Teixeira.

Quanta saudade.

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