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Fuga para a imortalidade

Da FOLHA

Por RICARDO ARAÚJO PEREIRA

Eu tenho medo de ser inspirado pela obsessão com o perfeccionismo  de Cristiano Ronaldo

Dito assim parece um sonho surrealista, mas o Pelé ganhou um jogo aos nazistas com o Rambo no gol. Eu vi. Foi no filme “Fuga para a Vitória”, do John Huston.

Um grupo de prisioneiros de guerra aceita jogar um amistoso contra os alemães. O plano é escapar no intervalo através de um túnel, mas acabam por jogar os 90 minutos.

Parece-me que a lição do filme é: entre a liberdade e a hipótese de jogar uma pelada, um grupo de 11 homens opta sempre pela segunda.

A liberdade é um conceito lindo, e tal, e até estava 4 a 1 no final do primeiro tempo, mas eles falaram no vestiário e sentiram que era possível ganhar de virada.

Os aliados tinham o Rambo —que, como sabemos hoje, era capaz de esventrar toda a torcida nazi só com uma faca do mato, mas naquele dia era importante que ele se concentrasse em defender um pênalti.

Os roteiristas pensaram: qual seria a forma mais épica de fazer um gol? Que gol seria tão incrivelmente belo que até americanos, um povo bárbaro que acha que futebol se diz soccer, ficariam impressionados?

Decidiram pelo seguinte: Bobby Moore escapa pela direita e cruza para a área; Pelé, de costas para a baliza, chuta de pontapé de bicicleta; a bola entra do lado esquerdo do goleiro; um espectador nazi não se contém e aplaude de pé.

Faz lembrar alguma coisa?

Nesta semana, Cristiano Ronaldo foi o Pelé do filme, mas na vida real: bola da direita, bicicleta, lado esquerdo do goleiro, adversários aplaudindo de pé.

Fiquei surpreendido quando soube que, no final do jogo, o Real Madrid não tinha fugido do estádio da Juventus por um túnel. E estranhei a ausência do Rambo. De resto, tudo igual.

Eu sei, eu sei. Há quem tenha má impressão do Cristiano Ronaldo. Eu tenho medo. Medo de ser inspirado por aquele exemplo, pela obsessão com o perfeccionismo, pelo espírito de sacrifício, pela determinação, pela autoconfiança inabalável.

Felizmente, Deus fez-me desprovido de qualquer ética profissional e, em lugar disso, deu-me a graça de andar entretido a encontrar semelhanças entre um jogo da Liga dos Campeões e uma cena de um filme antigo.

Obrigado, Senhor.

*Ricardo Araújo Pereira é humorista português e um dos criadores do coletivo Gato Fedorento, referência humorística em seu país.

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