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Muralha: a bola que me pegue

Reprodução/TV Globo

Da FOLHA

Por MARCIUS MELHEM

Escrevo esta coluna no início da madrugada de quinta, numa cama de hotel em Belo Horizonte, logo após o Flamengo perder a Copa do Brasil para o Cruzeiro na disputa de pênaltis.

Pelo local em que estou, numa cama de hotel, em vez de um bar, uma festa, sobre o teto de um carro girando a camisa sobre a cabeça, já se deduz que eu torço para o Flamengo.

Os roteiros imprevisíveis que o esporte escreve são fascinantes. Veja o caso do goleiro Muralha, do Flamengo. Tão criticado por suas falhas, teve a chance de começar jogando e, após o zero a zero do tempo normal, usar a disputa de pênaltis para passar de vilão a herói, conquistar sua redenção e cumprir uma linda jornada.

Só que não.

O esporte se esmera tanto em seus roteiros, que chega a esse requinte de quebrar a quebra da expectativa, dando um duplo twist carpado, uma guinada de 360 graus e voltar ao mesmo lugar. Ou resumindo: de onde menos se espera é que não sai coisa nenhuma mesmo.

Muralha não pegou nenhum pênalti e o Cruzeiro levou por 5×3, já que Fábio —goleiro adversário— pegou um dos quatro que o Flamengo bateu.

Esporte é isso aí, ganhar ou perder. Faz parte.

Mas há derrotas que nos fazem pensar. Muralha pulou para o mesmo lado nos cinco pênaltis. Não chegou perto de pegar nenhum. Confrontado com a inédita decisão de saltar só pro canto direito, disse que era “estratégia”.

Que subversão maravilhosa. Desde que inventaram o goleiro, sua função é ir ao encontro da bola e impedir o gol. Muralha inventou a tática do “a bola que me pegue”.

Repare que engenhoso. Ele escolhe um canto só e pensa: uma hora essa bola vem pro lado de cá. Essa inversão é tão genial, que parece loucura. Ou vice versa.

Imagine se isso se espalha como estratégia em outras situações?

Um país resolve atacar outro e lança bombas em apenas uma área do campo inimigo. Alguém avisa: “gente, o exército deles está do outro lado”. Aí vem a resposta da tática Muralha: “sim, mas quando eles vierem pra cá, vão ver o que é bom…”.

Ganhar torcendo pro outro errar não me parece encher alguém de mérito. Mas na mágica do esporte até isso acaba bem visto.

Quando dá certo.

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