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Brasil corrompe até o futebol

Da FOLHA

Por CLÓVIS ROSSI

A frase que melhor define o futebol pertence a um lendário treinador do Liverpool, um dos grandes clubes ingleses, chamado Bill Shankly (1913-1981). É assim: “Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Eu posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante”.

Pena que brasileiros estejam na origem do aspecto mais sombrio desse extraordinário fenômeno, depois de o terem elevado ao sublime (remember Pelé, Garrincha e companheiros nos anos 60 e 70).

O lado sombrio fica claro no recém-lançado livro do jornalista David Conn (“The Guardian”) com um título que prefiro traduzir para o português coloquial: “A casa da Fifa caiu” (o subtítulo é “a corrupção multimilionária no coração do futebol global”).

Bem que Juca Kfouri poderia produzir uma versão nacional sobre a CBF ou a “Casa Bandida do Futebol”, como ele prefere chamá-la.

Não li ainda o livro de Conn, mas apoio este texto na resenha de Simon Kuper para a “New York Review of Books”.

Apresento Kuper: é colunista do “Financial Times”, especializado em futebol e política. Seu fascínio pelo futebol é tamanho que escreve: “Vendo um grande jogador como o argentino Lionel Messi, você pode testemunhar o gênio humano de uma maneira que é mais fácil de compreender do que, digamos, Einstein ou Picasso”.

Vamos agora a como um brasileiro, João Havelange, mudou a face da Fifa e transformou-a em uma máquina de fazer dinheiro. Onde há muito dinheiro, há inexoravelmente corrupção. Basta olhar as malas de dinheiro apanhadas pela operação Lava Jato : se política e negócios se corrompem, por que o futebol escaparia?

O antecessor de Havelange, sir Stanley Rous, não recebia nem salário pelo cargo que ocupou de 1961 a 1974. O brasileiro mudou tudo: ampliou a Copa do Mundo, a galinha dos ovos de ouro da Fifa, abriu mais vagas para países asiáticos e africanos e aumentou os valores para ceder os direitos de transmissão do torneio.

Escreve Kuper com base no livro de Conn: “Horst Dassler, cujo pai tinha criado a fábrica de chuteiras Adidas, comprou muitos direitos diretamente de Havelange. Dassler pagou propinas a ele, e o brasileiro levava maletas de dinheiro vivo em voos de primeira classe entre o Rio e Zurique [sede da Fifa]”.

Vê-se, pois, que Geddel Vieira Lima e Rodrigo Rocha Loures não são nem sequer originais.

Kuper relata ainda que a corrupção, segundo o livro de Conn, é coisa de família: “Sandro Rosell [ex-presidente do Barcelona] enviou £ 2 milhões (R$ 8,12 milhões) para a filha de dez anos de Ricardo Teixeira, [então] membro do Comitê Executivo [da Fifa], famoso por sua avareza e ex-genro de João Havelange”.

Como na Lava Jato, a corrupção na Fifa também levou a uma penca de prisões, entre elas a do sucessor de Teixeira na CBF, José Maria Marin.

Só torço que não se possa escrever sobre a política e as empresas brasileiras envolvidas na Lava Jato o que Kuper escreveu dois anos depois das prisões no futebol: “A Fifa permanece basicamente não-reformada”.

Serviço: “The Fall of the House of Fifa” pode ser comprado online.

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