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Juízes concursados “se contorcem de vergonha com decisões da Suprema Corte”

Por Juíza LUDMILA LINS GRILLO*

“Sempre que o STF profere alguma decisão bizarra, o povo logo se apressa para sentenciar: “a Justiça no Brasil é uma piada”. Nem se passa pela cabeça da galera que os outros juízes – sim, os OUTROS – se contorcem de vergonha com certas decisões da Suprema Corte, e não se sentem nem um pouco representados por ela.

O que muitos juízes sentem é que existem duas Justiças no Brasil. E essas Justiças não se misturam uma com a outra. Uma é a dos juízes por indicação política. A outra é a dos juízes concursados.

A Justiça do STF e a Justiça de primeiro grau revelam a existência de duas categorias de juízes que não se misturam. São como água e azeite.

São dois mundos completamente isolados um do outro. Um não tem contato nenhum com o outro e um não se assemelha em nada com o outro. Um, muitas vezes, parece atuar contra o outro. Faz declarações contra o outro. E o outro, por muitas vezes, morre de vergonha do um.

Geralmente, o outro prefere que os “juízes” do STF sejam mesmo chamados de Ministros – para não confundir com os demais, os verdadeiros juízes.

A atual composição do STF revela que, dentre os 11 Ministros (sim, M-I-N-I-S-T-R-O-S!), apenas dois são magistrados de carreira: Rosa Weber e Luiz Fux.

Ou seja: nove deles não têm a mais vaga ideia do que é gerir uma unidade judiciária a quilômetros de distância de sua família, em cidades pequenas de interior, com falta de mão-de-obra e de infra-estrutura, com uma demanda acachapante e praticamente inadministrável.

Julgam grandes causas – as mais importantes do Brasil – sem terem nunca sequer julgado um inventariozinho da dona Maria que morreu. Nem uma pensão alimentícia simplória. Nem uma medida para um menor infrator, nem um remédio para um doente, nem uma internação para um idoso, nem uma autorização para menor em eventos e viagens, nem uma partilhazinha de bens, nem uma aposentadoriazinha rural. Nada. NADA.

Certamente não fazem a menor ideia de como é visitar a casa humilde da senhorinha acamada que não se mexe, para propiciar-lhe a interdição. Nem imaginam como é desgastante a visita periódica ao presídio – e o percorrer por entre as celas. Nem sonham com as correições nos cartórios extrajudiciais. Nem supõem o que seja passar um dia inteiro ouvindo testemunhas e interrogando réus.

Nunca presidiram uma sessão do Tribunal do Júri. Não conhecem as agruras, as dificuldades do interior. Não conhecem nada do que é ser juiz de primeiro grau. Nada.

Do alto de seus carros com motorista pagos com dinheiro público, não devem fazer a menor ideia de que ser juiz de verdade é não ter motorista nenhum. Ser juiz é andar com seu próprio carro – por sua conta e risco – nas estradas de terra do interior do Brasil .

Talvez os Ministros nem saibam o que é uma estrada de terra – ou nem se lembrem mais o que é isso. Às vezes, nem a gasolina ganhamos, tirando muitas vezes do nosso próprio bolso para sustentar o Estado, sem saber se um dia seremos reembolsados – muitas vezes não somos.

Será que os juízes, digo, Ministros do STF sabem o que é passar por isso? Por que será que os réus lutam tanto para serem julgados pelo STF (o famoso “foro privilegiado”) – fugindo dos juízes de primeiro grau como o diabo foge da cruz? Por que será que eles preferem ser julgados pelos “juízes” indicados politicamente, e não pelos juízes concursados?

É por essas e outras que, sem constrangimento algum, rogo-lhes: não me coloquem no mesmo balaio do STF. Faço parte da outra Justiça: a de VERDADE.”

*LUDMILA LINS GRILLO é juíza de direito do TJ-MG

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4 Respostas to “Juízes concursados “se contorcem de vergonha com decisões da Suprema Corte””

  1. Sandra Queiroz Says:

    O exposto pela juiza acontece em todas as esferas custeadas pelo dinheiro público. Trabalhei numa empresa estatal, após muito estudar para passar no concurso. Ali se o empregado quiser, se encosta e não precisa suar. Se quiser seguir carreira basta trabalhar. Até certo ponto. A carreira tem um limite. A partir de um certo nível, o conhecimento e esforço já não significam muita coisa. Tudo se torna político e o que conta é a indicação. E tem que entrar no esquema. Fazer concessões, aceitar propinas, favores variados. A partir de então o rendimento engorda de variadas formas. Algumas até legais, como ser conselheiro de estatais e receber 10k por reunião. Ou indicar alguém da família para o conselho. Ou ter parentes em fornecedores. Porém longe do prega o código de éticas dessas empresas..
    Nos cargos mais altos, diretores e até mesmo executivos, poucos ocupantes conhecem efetivamente a empresa, e raramente tem algum comprometimento com o resultado. O exemplo maior recente é o da Petrobrás. Se passar um pente fino nos Correios, CEF, BB, citando as maiores, irão encontrar outro tanto de escândalos.
    E pelo relato, no judiciário não é diferente

  2. Marcos Paulo (@marcosflorestal) Says:

    Paulinho, parabéns à magistrada, Ludmilla Lins Grillo, pelo texto, pelo desabafo. Temos que discernir isso: ministro é ministro e juiz é juiz.

  3. Nelson Coutinho Says:

    Toda essa celeuma porque soltaram o Dirceu e agora aparecem os impolutos.Quando impediram Lula de ser ministro foram louvados e ainda não resolveram esse assunto mesmo depois do caso Moreira Franco ).Hipocrisia total. E o queridinho Moro que usa a justiça de modo parcial ( pera-lá juiz não tem lado só julga ahahahahaha), como por exemplo divulgar conversas privadas sem assunto de investigação como a mulher do Lula e do filho (divulgação que acho mais grave que a conversa entre Dilma e Lula ).E por falar nisso o Moro se formou num ano e virou juiz em outro. Que merda de sistema é esse.
    Os integrantes do sistema judiciário devem se ater a estrada reta das leis e não usar acostamentos .

  4. Nelson Coutinho Says:

    E a hipocrisia tambem está no meio da imprensa , como aqui neste blog , em que aparece delações acusando Lula mas não aparece delações o absolvendo. Tá tudo dominado.

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