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O Supremo e a bola

EDITORIAL DA FOLHA

Com mais de uma centena de inquéritos da Lava Jato pela frente, o Supremo Tribunal Federal teve de achar tempo para definir o desfecho do campeonato brasileiro de futebol de 30 anos atrás.

Enfrentaram-se, na mais alta corte do país, o Sport, de Recife, e o Flamengo, carioca, este recorrendo de decisão que garantia àquele o direito de ser o único campeão de 1987. A 1ª Turma do STF deu vitória ao clube pernambucano; o do Rio estuda novo recurso.

O ministro Luís Roberto Barroso votou pela divisão do título entre os dois; relator do caso e flamenguista, Marco Aurélio Mello decidiu contra seu time; Rosa Weber criticou a judicialização do tema.

De fato, o que deveria ser apenas um exemplo da proverbial desorganização do esporte brasileiro converteu-se, com a pletora de recursos processuais disponíveis no Judiciário do país, em mais uma pendenga interminável a abarrotar os tribunais de todas as instâncias.

Recorde-se o episódio: em 1987, sufocada por prejuízos, politicagem, amadorismo e corrupção, a Confederação Brasileira de Futebol declarou-se incapaz de organizar um campeonato; em resposta, os clubes mais tradicionais promoveram um certame com 16 participantes, chamado Copa União.

Gerou-se, com isso, previsível —e, em alguns casos, justificada— insatisfação por parte das agremiações excluídas. A CBF, por fim, definiu que o Brasileiro seria disputado pelos dois finalistas da Copa União, rebatizada como Módulo Verde, e duas outras equipes, que sairiam do Módulo Amarelo.

Flamengo e Internacional, campeão e vice da competição mais elitizada, recusaram-se a jogar contra Sport e Guarani, os mais bem colocados no torneio que reunia forças intermediárias do futebol.

De início, a CBF conferiu o título ao clube recifense; em 2011, numa decisão política, incluiu o carioca na honraria. O primeiro, que sempre pleiteou a exclusividade na Justiça, afinal obteve no STF o entendimento de que o assunto transitou em julgado em 1999.

Mesmo que a novela tenha chegado ao fim nos tribunais, a controvérsia, por certo, nunca estará pacificada no mundo futebolístico, ainda mais porque se trata de atividade em que a paixão prevalece sobre a lógica. Na ausência irremediável de consenso, que cada um comemore seu triunfo, oficial ou não —e bola para a frente.

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