Se Pelé fosse escritor assinaria com gosto a biografia de Roberto Civita

civita

DA FOLHA

Por JUCA KFOURI

CHEGA HOJE às livrarias o livro que não fica a dever ao monumental “O Reino e o Poder”, do jornalista e ensaísta americano Gay Talese, sobre a história de “The New York Times”.

Trata-se da biografia não autorizada “Roberto Civita: O Dono da Banca, A vida e as ideias do editor de Veja e da Abril”, escrita por Carlos Maranhão.

Deixemos tudo bem claro para começar.

Maranhão e eu somos amigos há 42 anos, quando nos conhecemos na revista “Placar”.

Dono de um dos mais refinados textos da imprensa brasileira, e de extremo rigor na apuração de tudo que publica, ele já tinha nos presenteado com a formidável biografia do escritor e roteirista Marcos Rey, sob o título “Maldição e Glória”, pela mesma Companhia das Letras que agora lança não apenas a de Civita, mas, também, a da Editora Abril e de “Veja”.

Tratar do livro aqui teria a desculpa de que nele se fala da velha “Placar”, mas soaria falso.

Chamado a entrevistá-lo no “Roda Viva” da TV Cultura que será gravado também hoje, e consumido na última madrugada com a leitura de suas mais de 500 páginas —536 para ser tão rigoroso como o autor—, saio uma vez do futebol para recomendar com entusiasmo uma obra colossal, obrigatória para quem faz jornalismo ou tem a intenção de e, além, deliciosa para qualquer apreciador de uma grande história muito bem contada.

História que tem no protagonista começo, meio e fim, pois RC morreu em 2013, mas que descreve com riqueza de detalhes a glória e a queda do que foi a maior editora da América Latina, um processo longo recheado de escolhas mal-sucedidas.

Maranhão viveu nela por mais de quatro décadas, de repórter a diretor de redação, e foi escolhido pelo dr. Roberto para ser seu biógrafo oficial –o que a morte impediu.

Biografar o patrão não pode dar certo, a não ser que se limite a transcrevê-lo ou o biografado deixe de ser o patrão.

Assim fez Carlos Maranhão.

Não apenas deixou a Abril como publica o livro fora dela. Mais: não aceitou cobrir sua sexta Olimpíada, a do Rio, como frila de “Veja”, por considerar que haveria ali um conflito de interesses. Coisa rara, convenhamos.

Se voltará um dia a colaborar com alguma das poucas revistas que restaram na editora dependerá da grandeza dos editores, embora a excelência da epopeia o recomende ainda mais.

Bob é o homem e suas circunstâncias descritos sem meias palavras, para o bem e para o mal, com seu cachimbo, seu sotaque, suas idiossincrasias, qualidades, muitas, e defeitos, não poucos.

Idem ibidem no que diz respeito à Abril e à “Veja”.

Cada revista citada tem sua história, cada personagem o seu perfil, como fez Talese no livraço sobre o NYT, com o mesmo brilho, ou mais. Além de 100 entrevistas, contando com a de Robert.

Não pense a rara leitora e o raro leitor que lê aqui uma homenagem entre amigos.

Não tivesse gostado, nada escreveria.

Se apenas tivesse apreciado, registraria em espaço, digamos, mais adequado.

Impregnado que estou pelo impacto do que acabo de ler, não há como fugir da exaltação.

Tentarei ser menos entusiasta no “Roda Viva”.

Quem sabe consiga deixá-lo em má situação…

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