Novo Governo, velho futebol

Por ROQUE CITADINI
Sempre que um novo governo assume seu trabalho, o mundo do futebol (e do esporte em geral) alimenta esperanças de mudanças e progresso.
O governo Temer -que não é tão novo assim- não traz qualquer expectativa de novos ares para o esporte nacional.
O “mundo” do futebol é sempre um “estado” à parte da nação.
A paixão pelo jogo de bola trazido da Inglaterra estabelece um muro que muito tem contribuído para nosso atraso nesta área.
As importantes vitórias de nossos times -iniciadas em 1919- foram construindo uma cultura que é típica do futebol.
A linguagem sintetizada que marca os “boleiros” e até a constituição de dirigentes “folclóricos” vão fazendo o futebol um mundo descolado de tudo.
A própria mídia esportiva tem um espaço próprio, quase segregado dos demais setores e muito resistente a mudanças.
Sustentado por vitórias constantes, o futebol é um convite à estagnação e ao reacionarismo.
Qualquer ideia nova ou qualquer opinião diferente é de pronto afastada do mundo do futebol.
Lembro bem quando assumi a vice-presidência de futebol do Corinthians, no final de 2001, e disse à imprensa que eu achava “papo furado” esse negócio de “co-irmãos”. Até dentro dos dirigentes do clube alvinegro fui criticado. Havia -segundo queriam me fazer crer- um ritual de elegante nas relações entre os clubes, embora eles se odiassem o tempo todo e procurassem um “passar a perna ” no outro. Nunca aceitei esta formal ideia.
Há quase sempre um discurso padrão de jogadores, técnicos e dirigentes. Se algum diz algo fora das fórmulas aceitas, o “mundo” do futebol procura expelir esses diferentes.
Em quase todos os clubes, federações e na CBF quase todos os dirigentes se apresentam como ricos empresários que chegaram ao futebol para salvar o esporte. Alguns, procuram divulgar histórias que dizem que eles são beneméritos e que doaram dinheiro aos clubes. Nunca vi isso.
É claro que nosso futebol precisa de mudanças urgentes.
O desastre da Copa deveria servir para buscarmos caminhos novos.
As mudanças possíveis no futebol vêm por dois campos: pelos clubes e pelo governo.
As grandes equipes do nosso futebol vieram -quase todas- de clubes sociais. Por esta razão, em muitos casos desta área o país sempre encontra experiências positivas de mudanças. Nas áreas políticas dos clubes é possível encontrar ideias de mudanças, mesmo que limitadas.
As federações e Confederação são estâncias duramente conservadoras. Não querem mudar nada. A única preocupação é em manter os dirigentes nos postos “trabalhando” pelo Brasil. São um exército do atraso.
Aí entra o governo. Quando a política abre espaço para mudanças, aparecem leis renovadoras em nosso futebol.
Os últimos governos pouco ajudaram, mesmo com o surgimento de boas iniciativas em alguns momentos. Com falta de apoio, quase todas as boas ideias ficaram incompletas -ou fracassaram completamente.
Foi assim no governo Fernando Henrique, no governo Lula e e na gestão de Dilma. Uma ou outra medida positiva e muito retrocesso.
O que segura os governos nas iniciativas de mudanças é o grande envolvimento com o Poder das federações e da CBF.
Desde a gestão do ex-presidente Ricardo Teixeira, o “envolvimento” do Estado mostra um trabalho eficiente para segurar as mudanças.
Governos de esquerda e de direita -isso não importa para o futebol- todos seguem apoiando o quadro da forma como ele é.
Mesmo aqueles que se dizem (ou se diziam) de esquerda e que criticavam os rumos do futebol mudaram seus discursos e seus amigos ao chegar no poder.
O governo que aí está tem tudo para ser o mais do mesmo para o futebol.
Seria uma surpresa para todos se iniciarmos um caminho de reformas para nosso principal esporte.
Vamos torcer por mudanças. Torcer, quase sem esperança.
