O show de Trump

Da FOLHA
Por BERNARDO MELLO FRANCO
Durante muito tempo, o sistema político americano preferiu tratá-lo como uma piada inofensiva. Agora o tom mudou. Às vésperas do início da corrida presidencial, o excêntrico Donald Trump passou a ser visto como um candidato com chances reais de chegar à Casa Branca.
Segundo pesquisa divulgada ontem pela CNN, quatro em cada dez eleitores republicanos apoiam o bilionário. Mesmo desprezado pela cúpula do partido, ele virou favorito para vencer a prévia inaugural de Iowa, na próxima segunda-feira.
Com um discurso populista e agressivo, Trump defende medidas como a expulsão de milhões de imigrantes e a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA. Em debates, alterna ataques grosseiros a rivais com gafes constrangedoras sobre economia e política internacional.
Os tropeços não incomodam seus fãs. O bilionário tem apoio cada vez mais sólido entre eleitores desiludidos com a política e assustados com o fantasma do terrorismo, que ele se esforça para turbinar. No sábado, Trump disse que poderia matar alguém sem motivo e não perderia votos. Deve ser verdade.
A nova edição da revista “The New Yorker” ajuda a explicar por que a receita está dando certo. A reportagem mostra como o bilionário transformou a campanha em um grande espetáculo. O show já começa na chegada ao aeroporto, quando ele desce de seu Boeing particular ao som do tema do filme “Air Force One”, em que Harrison Ford vive o presidente.
Nos comícios, a trilha sonora é escolhida pelo próprio candidato, fã de heavy metal e de musicais. Ele desfia o discurso xenofóbico com verve de animador de auditório. “Quem vai pagar pelo muro?”, pergunta. “O México!”, grita a multidão, extasiada.
Para o analista republicano Peter Wehner, Trump une “ignorância”, “instabilidade emocional” e “demagogia”, e sua eleição seria uma “catástrofe”. Vindo de um dos principais assessores do ex-presidente George W. Bush, parece uma ameaça e tanto.
