Sobre a Copa São Paulo de Futebol Juniores

(texto de autoria do jornalista FLÁVIO PRADO, publicado em 2008 no site da Gazeta Esportiva, mas que se mantém absolutamente atual, oito anos depois)
Não dá para visitar São Luiz, no Maranhão, sem conhecer o Cafuá das Mercês. Prédio muito antigo conserva a arquitetura original dos tempos em que era uma praça de leilões de escravos. A Copa São Paulo, que não consegue nem ter o nome certo, já que abriga jogadores juvenis, ou seja de 15 a 18 anos, mas até no site da Federação Paulista é chamada de juniores, me lembra bastante os velhos mercadões escravagistas.
Trazem bandos de moleques, viajando dias a fio, em onibus vagabundos e colocam-nos em exposição. São “times” de empresários, políticos e todo tipo de explorador de mão, ou no caso, pé de obra barato. Vai que um deles mostra alguma coisa. Nem que seja para vender, por mixaria, para qualquer fim de mundo, os meninos seguem atrás de sonhos, quase sempre frustrados lá na frente, com os bolsos e barrigas vazios, porém enriquecendo os seus donos atuais.
Essas “coisas”, que surgiram nos últimos anos, nessa competição, que já foi tão respeitada, só serviram para apequená-la. 88 (112 em 2016) competidores significa brincar com os torcedores. Muitos desses jogadores não conseguiriam sobreviver nem em festivais de várzea, que dirá atuando contra equipes profissionais, ou quase, com meninos bem treinados, quando não gatos.
Eu era um entusiasta da Copa São Paulo, hoje a ignoro completamente. O objetivo final foi revertido. Isso não quer dizer que não se possa ver, pela primeira vez, garotos de bom futuro, como o Breno no ano passado. Ele porém apareceria com destaque, com ou sem o Cafuá das Mercês moderno.
O pior é que tudo poderia ser diferente caso jogasse somente quem tivesse qualidade. As duas primeiras semanas do ano seriam voltadas para vermos, exclusivamente, o que há de melhor para o futuro. Com esse circão pulverizam-se os craques e na hora que eles podem ser vistos de verdade, nas fases decisivas, já têm a concorrência direta do Campeonato Paulista.
O filé mignon passa, então, a ser digerido por poucos. Lamento muito. Interesses menores estão destruindo também esse torneio, que já foi tão aguardado e hoje não passa de um ridículo mercadão de gente. Como nos piores momentos do século 19.
