Afronta em Caracas
EDITORIAL DA FOLHA
“Não causa nenhuma surpresa o ocorrido na quinta-feira (18), em Caracas, com a comitiva de senadores brasileiros que intentava visitar opositores presos pelo governo da Venezuela.”
Num episódio que mais uma vez confirma a deterioração das instituições daquele país, atos de hostilidade se organizaram contra a visita, barrando o percurso do micro-ônibus que levava os congressistas.
O mínimo a esperar, em tais situações, seria que se oferecessem garantias de segurança para o deslocamento dos parlamentares. Uma turba de militantes cercou, porém, o veículo da comitiva.
A intimidação foi facilitada pela múltipla operação de tráfego coincidentemente organizada naquele mesmo dia –envolvendo o traslado de um prisioneiro recém-extraditado, a limpeza de túneis, um derramamento de carga e não se sabe mais que outros expedientes.
É comum nos governos habituados ao abuso da força o recurso a subterfúgios e disfarces inconvincentes antes da explicitação, de uma vez por todas, de seu caráter ditatorial. Milícias supostamente autônomas fizeram em muitos países a obra preparatória da violência e da desordem antes de se efetuar o golpe final do totalitarismo.
Também não escapa ao figurino fascista a nota do deboche –tal como expressa pelo vice-presidente Jorge Arreaza, que enviou mensagem à mulher de um dos políticos encarcerados pelo regime. Se os senadores tentavam visitar os opositores presos, disse a autoridade venezuelana, era porque não tinham “muito trabalho por lá [no Brasil]”.
Por improvisada que possa ter sido a iniciativa dos brasileiros (e por mais que lhes tenha resultado em ganho político), não há como aceitar tal expressão de desrespeito.
Se a plena vigência da democracia é condição para que um país pertença ao Mercosul, não se pode negar legitimidade à missão dos senadores, querendo avaliar “in loco” uma situação política que o Executivo brasileiro já deu mostras de tratar com complacência.
Neste caso, ao menos, o Itamaraty reagiu com prontidão. Repudiou o incidente, como seria de esperar. Enquanto espessas sombras continuam a pesar sobre o horizonte político venezuelano, continuam pouco nítidas, todavia, as reais disposições do petismo perante seus companheiros do norte.

